Tenho falado bastante das loucuras dos reacionários e de sua política do medo. Há uma direita que sobrevive fabricando pânico moral em escala industrial, como se cada eleição fosse a última trincheira antes do colapso da civilização. Tudo vira ameaça, conspiração, decadência irreversível, perseguição iminente. O medo, nesse ambiente, deixa de ser uma reação prudente diante de perigos reais e passa a funcionar como método de mobilização. O eleitor não é chamado a pensar, ponderar, comparar propostas ou exigir responsabilidade institucional. Ele é conduzido a tremer. E quem treme entrega a alma com facilidade ao primeiro salvador de plantão.

Mas hoje quero falar de outro vício, menos grosseiro no tom e, por isso mesmo, muitas vezes mais sedutor. Refiro-me à irritante ênfase progressista na esperança. Não me entendam mal. Eu nada tenho contra a esperança. Sou cristão. Justamente por isso, me incomoda ver uma palavra tão cara à fé cristã ser sequestrada por campanhas eleitorais, candidaturas carismáticas, jingles emocionais e discursos que prometem redenção histórica por meio de arranjos partidários. A tradição cristã sempre distinguiu a esperança comum, voltada a bens finitos desta vida, da esperança teologal, cujo horizonte último está em Deus. Essa distinção é antiga e aparece de modo clássico em Agostinho e Tomás de Aquino.

A política precisa de responsabilidade, imaginação moral, prudência e senso de justiça. Ela pode melhorar a vida das pessoas, proteger os pobres, limitar abusos, preservar liberdades, ordenar conflitos e impedir que a força bruta governe a cidade. Um cristão não deve desprezar essas tarefas. A omissão diante da injustiça também é uma forma de cumplicidade. A distorção aparece no instante em que a política abandona sua condição de instrumento limitado de governo e começa a vender uma experiência quase litúrgica de salvação. Nesse ponto, o progressismo costuma trocar a velha promessa cristã pela sua versão secularizada. O vocabulário permanece elevado, é verdade, mas já o altar, esse mudou de lugar.

A direita reacionária costuma dizer que, sem ela, tudo será destruído. O progressismo messiânico costuma sugerir que, com ele, a história finalmente respirará aliviada. De um lado, o medo como combustível. Do outro, a esperança como anestesia moral. Ambos disputam o coração humano antes de disputar o voto. Ambos sabem que a política se torna mais eficiente quando captura afetos religiosos. O reacionário quer que você enxergue o adversário como monstro. O progressista quer que você enxergue sua candidatura como manhã de Páscoa. Um vende apocalipse sem escatologia cristã. O outro vende ressurreição sem Cristo.

É aqui que minha pieguice cristã precisa aparecer sem vergonha. Esperança é só Cristo.

Essa frase pode soar estreita, ignorante e pouco sofisticada para os iluminados, sobretudo para quem aprendeu a tratar toda afirmação confessional como atraso civilizacional. Paciência. Para o cristão, esperança não é otimismo histórico, nem disposição psicológica, nem expectativa de melhora estatística, nem energia simbólica de campanha. Esperança é uma virtude enraizada na ressurreição de Jesus. Ela nasce do fato de que Deus ressuscitou o Crucificado, venceu a morte, desmascarou os poderes e prometeu fazer novas todas as coisas. O Novo Testamento não apresenta a esperança cristã como entusiasmo coletivo diante de um projeto humano, mas como confiança perseverante no Deus que age quando a história parece fechada (Rm 5.1-5; Rm 8.18-25; 1Co 15.19-28). Paulo fala da esperança ligada à glória futura, à redenção do corpo e à fidelidade de Deus (Rm 8.18-25; 2Co 4.16-18; Tt 1.1-2). Pedro fala de uma viva esperança pela ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos (1Pe 1.3-5). João contempla a nova criação descendo de Deus, não subindo do gabinete de algum estrategista político (Ap 21.1-5).

Isso não esvazia a política. Pelo contrário, coloca a política no seu lugar. O cristão pode votar, militar, debater, propor leis, defender instituições e combater injustiças sem precisar transformar candidato em sacramento. A fé cristã não exige cinismo público, claro, mas exige sobriedade. O Estado pode conter o mal, promover alguma ordem e servir ao bem comum. Entretanto, quando promete sentido último, ele já começou a mentir. A redenção é um peso grande demais para os ombros de qualquer governo, e a esperança escatológica não cabe na estrutura frágil de um partido. Presidentes, parlamentares, ministros e juízes podem exercer funções legítimas, às vezes até necessárias, mas nenhum deles deve receber de nós a confiança última que pertence apenas ao Cristo ressuscitado.

O problema da esperança progressista não está em desejar um país menos cruel. Esse desejo é moralmente legítimo. O incômodo está na aura sacerdotal que costuma envolver certas causas e certas lideranças. Quem adere ao projeto é humano, sensível, compassivo, lúcido, aberto ao futuro. Quem discorda passa a ser tratado como alguém moralmente inferior, prisioneiro do atraso, da ignorância ou do ódio. Assim, a esperança deixa de ser virtude e vira instrumento de classificação moral ou, como dizem no X (antigo Twitter), vira “sinalização de virtude”. Nesse ponto, a esperança deixa de consolar os cansados e passa a constranger os discordantes; perde a paciência própria de quem sabe esperar e assume o tom vaidoso de quem se julga moralmente superior, embora fale uma linguagem aparentemente secular.

A esperança cristã opera de outro modo. Ela não precisa mentir sobre a realidade para sobreviver. Ela sabe que o mundo é trágico, que o pecado atravessa indivíduos e estruturas, que boas intenções podem produzir políticas desastrosas, que vítimas também podem oprimir, que pobres podem ser usados como capital simbólico, que elites progressistas podem falar em justiça enquanto desprezam o povo real, com suas crenças, limites, tradições e contradições. A esperança cristã não depende da inocência dos nossos aliados políticos, porque ela repousa na fidelidade de Deus. Por isso, ela permite compromisso sem idolatria, crítica sem desespero e participação pública sem culto à personalidade.

Há algo profundamente anticristão em tratar a história como se ela aguardasse um grupo esclarecido para finalmente ser salva. A Bíblia não autoriza esse otimismo antropológico. O ser humano é capaz de beleza, generosidade e justiça, mas carrega uma inclinação persistente para a vaidade, a mentira e a dominação. Essa inclinação não desaparece quando alguém muda de lado no espectro ideológico. O pecado não respeita crachá partidário. Ele veste camiseta de movimento social, terno liberal, paletó conservador, toga, batina, camiseta de congresso e até roupa de culto. Por isso, uma política cristã minimamente lúcida precisa desconfiar das promessas grandiosas demais, inclusive quando vêm embaladas com vocabulário bonito.

A teologia contemporânea discutiu bastante a relação entre esperança cristã e transformação histórica, especialmente desde Jürgen Moltmann, cuja teologia da esperança recolocou a escatologia no centro da reflexão cristã moderna, conectando ressurreição, futuro de Deus e responsabilidade no mundo. O ponto decisivo, contudo, é que a esperança cristã não se confunde com o progresso inevitável da história nem com a vitória de uma agenda (na minha visão, algo que Moltmann falhou em destacar). Ao se desprender de Cristo, a esperança conserva certa linguagem de redenção, mas perde o juízo bíblico sobre o pecado, o poder e os limites da história. O resultado é uma utopia sentimental, capaz de justificar seus próprios abusos em nome de um futuro prometido que, justamente por permanecer sempre adiante, nunca presta contas no presente.

O cristão deve resistir tanto ao medo reacionário quanto à esperança progressista quando ambos exigem devoção. A nossa consciência não pertence ao pânico da direita nem à liturgia emocional da esquerda. Podemos reconhecer perigos reais sem viver de paranoia. Podemos desejar reformas justas sem entregar a alma a projetos que prometem mais do que a política pode cumprir. A maturidade cristã começa quando deixamos de pedir ao Estado aquilo que só o Reino de Deus dará.

Por isso, sim, continuarei criticando a política do medo. Ela adoece a alma pública, infantiliza a igreja e transforma prudência em histeria. Mas a política da esperança, quando se apresenta como redenção histórica por meio de candidatura, merece crítica igual. Ela pode parecer mais humana, mais poética, mais generosa. Ainda assim, quando exige fé, já cruzou uma fronteira perigosa.

Esperança é só Cristo. O resto, quando muito, é administração provisória da cidade dos homens.

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