Os sacramentos são sinais externos e sensíveis por meio dos quais realidades invisíveis da graça são anunciadas, testemunhadas e, conforme a tradição teológica, comunicadas à comunidade da fé. A definição precisa varia entre católicos, ortodoxos, luteranos, reformados e demais protestantes. Todos, porém, reconhecem de alguma maneira que o cristianismo não se limita à transmissão de ideias abstratas. A fé cristã envolve palavras, água, pão, vinho, óleo, imposição de mãos, gestos, vozes, corpos reunidos e uma memória compartilhada.

É indiscutível que parte dos cristãos evangélicos está redescobrindo a importância dos sacramentos — ou, em linguagem mais familiar a muitas igrejas protestantes, dos “sinais visíveis da graça” — nas cerimônias públicas. Essa redescoberta decorre, em boa medida, da percepção de que a liturgia protestante se tornou excessivamente cerebral. Em muitas comunidades, o culto parece concebido para transmitir informações à mente, enquanto a complexa integralidade da pessoa humana — imaginação, emoções, afetos, sensações, memória corporal e participação comunitária — recebe pouca atenção.

Quantas vezes o culto protestante se assemelha a uma espécie de conferência TED com louvores? 1TED é a sigla de Technology, Entertainment and Design — em português, “Tecnologia, Entretenimento e Design”. A organização tornou-se conhecida por conferências e palestras breves voltadas à disseminação de ideias. A tradução “Planejamento” para Design deve ser evitada nesse contexto. A congregação permanece sentada, assiste a uma apresentação musical e, em seguida, ouve uma palestra religiosa. O conteúdo pode ser ortodoxo e até intelectualmente estimulante, mas a comunidade participa pouco da ação litúrgica. Como escreveu Robinson Cavalcanti, o nosso culto evangélico tende a ser antiarte, antilúdico e anti-imaginativo, reduzindo-se, muitas vezes, a “quatro paredes caídas com um sermão” 2CAVALCANTI, Robinson. A Igreja, o País e o Mundo. 1. ed. Viçosa: Ultimato, 2000. p. 36..

Essa crítica não implica desprezo pela pregação, pela doutrina ou pelo exercício da razão. O problema não está em pensar durante o culto, mas em tratar o ser humano como se ele fosse apenas uma mente à qual se devem fornecer informações religiosas. Não somos intelectos desencarnados. Aprendemos por meio de palavras, mas também por gestos repetidos, ritmos, histórias, símbolos, posturas corporais, relações, espaços e hábitos. A liturgia não apenas expressa aquilo em que acreditamos; ela também educa os nossos desejos e forma em nós uma maneira de habitar o mundo. É precisamente esse o ponto enfatizado por James K. A. Smith ao lembrar que o ser humano não é apenas uma criatura que pensa, mas uma criatura que ama, deseja e se orienta por práticas formativas 3Para uma crítica à antropologia racionalista presente em setores do protestantismo e uma exposição sobre o caráter formativo das práticas litúrgicas, veja: SMITH, James K. A. Você é aquilo que ama: o poder espiritual do hábito. 1. ed. São Paulo: Vida Nova, 2017..

Também é inegável que os pentecostais clássicos demonstraram, ao longo de sua história, grande desconfiança em relação à linguagem sacramental e aos rituais litúrgicos mais elaborados. É necessário, porém, fazer uma distinção: os pentecostais não aboliram os ritos; rejeitaram principalmente os ritos que julgavam mortos, mecânicos ou desvinculados da experiência presente de Deus. Mesmo quando não admitem possuir uma liturgia, as igrejas pentecostais seguem uma gramática ritual bastante reconhecível.

Há unção com óleo, imposição de mãos, orações pela cura divina, consagração do pão e do vinho na Ceia do Senhor, leitura coletiva das Escrituras, testemunhos públicos, apelos, ajoelhamentos, vigílias, períodos de oração simultânea e fórmulas comunitárias de bênção. Há também gestos próprios da tradição pentecostal: levantar as mãos, reunir-se ao redor de alguém que recebe oração, responder coletivamente à pregação e abrir espaço para profecias, línguas e interpretações. Tudo isso constitui uma forma de ritualidade, ainda que espontânea e pouco codificada.

Nenhuma comunidade cristã existe sem ritos. Até a comunidade que afirma não possuir liturgia repete uma ordem de culto, desenvolve expectativas, estabelece gestos apropriados e determina quem pode falar, quando deve falar e de que modo deve fazê-lo. A alternativa não é entre liturgia e ausência de liturgia, mas entre liturgias mais ou menos conscientes de sua própria força formativa.

Parte da ojeriza pentecostal à linguagem sacramental nasceu da influência de correntes memorialistas do protestantismo, do congregacionalismo de igreja livre, do restauracionismo, do avivalismo e, posteriormente, do fundamentalismo norte-americano. O zwinglianismo exerceu influência sobre parcelas desse ambiente, mas seria excessivo atribuir-lhe sozinho a postura pentecostal. O pentecostalismo nasceu no interior de uma cultura protestante que frequentemente identificava liturgia formal com catolicismo e espontaneidade com liberdade do Espírito.

Além disso, muitas igrejas historicamente litúrgicas haviam caído naquele formalismo de etiqueta tão condenado pelas Escrituras. Os pentecostais estavam corretos ao denunciar a possibilidade de uma forma religiosa sobreviver depois que o coração se afastou de Deus. Os profetas de Israel fizeram a mesma denúncia. O problema surge quando se conclui que, porque um rito pode tornar-se vazio, todo rito é necessariamente vazio. A hipocrisia pode corromper a oração espontânea tanto quanto a oração escrita. Um sermão improvisado pode ser tão mecânico quanto uma antiga liturgia, e uma canção contemporânea pode ser repetida com tão pouca consciência quanto uma fórmula tradicional.

Em um contexto mais amplo, a antipatia pelo sacramento ou pelo “sinal da graça” reflete também certas tendências da modernidade ocidental. O ritual passou a ser visto por muitos como algo irracional, supersticioso ou infantil. Diante desse cenário, nada restaria senão o culto à razão e à interioridade individual. A religião verdadeira, pensava-se, deveria ser purificada de sua materialidade e reduzida a ideias, decisões morais e sentimentos privados.

Os protestantes, muitas vezes, não perceberam que o racionalismo moderno pode ser tão prejudicial quanto o sentimentalismo místico — e igualmente antibíblico. A Escritura não apresenta razão e experiência como inimigas. Ela rejeita tanto a experiência sem discernimento quanto o conhecimento que nunca se converte em obediência, adoração e vida comunitária. A Palavra precisa ser compreendida, mas também ouvida, celebrada, incorporada e praticada.

É necessário ainda qualificar o diagnóstico da secularização. Diferentemente do cenário da Reforma do século XVI, não vivemos sob o mesmo regime de sacralidade que organizava toda a vida social europeia. Ao mesmo tempo, o mundo contemporâneo não é simplesmente desprovido de religião. A secularização convive com ressurgimentos religiosos, espiritualidades difusas, crenças terapêuticas, esoterismos e novas formas de encantamento. A modernidade tardia não eliminou o sagrado; muitas vezes o deslocou, privatizou ou transformou em produto de consumo.

Apesar dessa complexidade, é verdadeiro que importantes setores da cultura moderna procuraram lançar o sagrado para “debaixo do alqueire”. O protestantismo, em vez de reagir criticamente ao racionalismo moderno, muitas vezes assimilou suas categorias. Mesmo em expressões conservadoras, a preocupação litúrgica continua frequentemente reduzida à mensagem do sermão e à mensagem das músicas. Pergunta-se se a letra é doutrinariamente correta e se a exposição bíblica é fiel, o que é indispensável, mas raramente se pergunta que tipo de pessoa está sendo formada pelos gestos, pelo espaço, pelo ritmo, pelas relações e pelos hábitos do culto.

Com isso, o protestantismo tem falhado em comunicar o Evangelho em toda a sua amplitude. Como filho da modernidade, imagina estar lidando apenas com indivíduos racionais e despreza a unidade concreta da pessoa, constituída por razão, emoção, vontade, paixão, memória e corpo. Tragicamente, até entre protestantes conservadores, a Bíblia pode ser apresentada como um compêndio de informações sobre Deus, e não como a voz viva do Senhor do Universo que convoca, julga, consola, alimenta e transforma seu povo.

Uma maneira de superar essa comunicação racionalista é recuperar os sinais sacramentais. Essa recuperação, contudo, não significa abraçar uma mentalidade mágica. O sinal cristão nunca atua de maneira autônoma, como se possuísse poder independente da Palavra, da promessa divina, da fé e da ação soberana do Espírito. Quando separado daquilo que significa, o sinal torna-se superstição; quando corretamente unido à Palavra, ele envolve a pessoa inteira na resposta à graça.

O falar em línguas: sinal audível da graça invisível

O batismo nas águas é motivo de muita controvérsia no interior do cristianismo. A Igreja Católica, as igrejas ortodoxas e muitas igrejas protestantes batizam crianças. Outras comunidades associam o batismo nas águas a uma profissão pessoal de fé, algo que um bebê ainda não pode fazer conscientemente. Há também a controvérsia quanto à forma: o batismo deve ser realizado por imersão, derramamento ou aspersão? Outra discussão envolve a fórmula: deve-se batizar em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo ou destacar particularmente o nome de Jesus?

A discussão parece interminável. Em todos esses casos, entretanto, o batismo nas águas é administrado pela igreja. Há um ministro, uma comunidade, água e uma forma litúrgica reconhecível. No batismo no Espírito Santo ocorre algo diferente. “A igreja não administra o batismo no Espírito; em vez disso, o batismo no Espírito administra a igreja”, como lembra o teólogo pentecostal Frank Macchia 4MACCHIA, Frank D. Baptized in the Spirit: a Global Pentecostal Theology. Grand Rapids: Zondervan, 2006. p. 402.. A formulação destaca a soberania de Cristo: nenhuma instituição, ministro ou técnica pode produzir o derramamento do Espírito.

A igreja pode orar, impor as mãos, ensinar e criar espaço para a busca, mas não controla o Espírito. É Jesus quem batiza no Espírito Santo. A experiência não pertence à igreja como um recurso que possa ser distribuído burocraticamente. Ao contrário, é a ação do Espírito que constitui, renova, corrige e envia a igreja.

Na compreensão pentecostal clássica, o batismo no Espírito Santo, como uma experiência de sacramentalidade sobrenatural, pede uma expressão externa. Somos mergulhados no Espírito por Jesus Cristo e saímos dessa experiência revestidos de coragem e intrepidez para o anúncio público do Evangelho. Lucas estabelece essa finalidade já em Atos 1.8: o Espírito vem sobre os discípulos para que eles sejam testemunhas de Cristo até os confins da terra.

A experiência não é um fim em si mesma. Não é misticismo no sentido pejorativo do termo nem simples busca de êxtase. É uma experiência vocacional e missiológica, um impulso à obra de evangelização e um sinal de que Deus acompanha seu povo nessa missão. A presença do Espírito não nos fecha em uma interioridade religiosa; ela nos desloca em direção ao próximo e ao mundo.

Não é por acaso que os pentecostais associam o falar em línguas e, em algumas narrativas de Atos, também a profecia, aos sinais do batismo no Espírito Santo. Em Atos 2, os discípulos falam em outras línguas conforme o Espírito lhes concede que falem. Em Atos 10, a casa de Cornélio é reconhecida como participante do mesmo dom porque os judeus ouvem os gentios falando em línguas e engrandecendo a Deus. Em Atos 19, os discípulos de Éfeso falam em línguas e profetizam. Em Atos 8, Lucas não informa explicitamente qual manifestação levou Simão a perceber que o Espírito havia sido concedido, razão pela qual esse texto deve ser tratado com maior cautela.

Línguas e profecia são dons de elocução. Na economia narrativa de Lucas, a vinda do Espírito atinge a boca dos discípulos. Essa escolha possui evidente força teológica: o revestimento de poder capacita o povo de Deus a tornar-se uma comunidade que fala. O silêncio causado pelo medo dá lugar ao testemunho; pessoas antes escondidas anunciam publicamente as grandezas de Deus.

Isso não significa que toda ocorrência de glossolalia seja uma pregação em idioma estrangeiro. Em Atos 2, a multidão ouve os discípulos proclamando as grandezas de Deus, e Pedro posteriormente interpreta o acontecimento por meio da pregação. Em 1 Coríntios 14, porém, Paulo descreve as línguas principalmente como fala dirigida a Deus, oração, ação de graças e expressão de mistérios, cuja comunicação pública à congregação depende da interpretação. A glossolalia não é idêntica à evangelização, mas sinaliza e alimenta uma existência entregue ao Espírito, da qual o testemunho faz parte.

Pentecostes também revela o caráter escatológico e plurilíngue do povo de Deus. O Espírito não apaga as línguas das nações para impor um único idioma sagrado. Ele atravessa as fronteiras linguísticas e torna as grandezas de Deus audíveis em diversos idiomas. Pentecostes não elimina a diversidade humana; consagra-a para o testemunho. O milagre não é a uniformização das vozes, mas a formação de uma comunhão em que diferentes povos podem ouvir as obras de Deus.

Por isso, a glossolalia pode ser entendida como um sinal audível de que o Evangelho não pertence a uma cultura, etnia ou classe social. O mesmo Espírito é derramado sobre filhos e filhas, jovens e idosos, servos e servas. O sinal rompe o monopólio religioso de uma elite. Não depende de formação acadêmica, posição clerical, eloquência natural ou prestígio social. A boca daquele que não ocupa o centro da comunidade também pode tornar-se lugar de testemunho da ação divina.

Nesse sentido, a glossolalia possui uma dimensão profundamente democrática. Não porque elimine ministérios, autoridade ou discernimento, mas porque testemunha que o Espírito distribui seus dons sem se submeter às hierarquias de honra estabelecidas pela sociedade. A manifestação não pode ser monopolizada pelo clero nem transformada em propriedade de especialistas religiosos.

Isso não significa, entretanto, que o exercício do dom seja incontrolável. Sua origem não está sob o domínio humano, mas sua utilização comunitária deve submeter-se ao amor, ao discernimento e à ordem. Paulo determina que, na reunião da igreja, falem dois ou três, um de cada vez, e que haja interpretação. Também afirma que “os espíritos dos profetas estão sujeitos aos próprios profetas” (1Co 14.32). O Espírito não anula a agência humana nem transforma o culto em desordem irresistível. A espontaneidade pentecostal não é o contrário da responsabilidade.

A glossolalia concede um significado mais profundo ao nosso vocabulário limitado. Ela é uma forma de oração na qual o ser humano reconhece que sua relação com Deus excede sua capacidade de formulação conceitual. 5Para uma interpretação teológica da glossolalia que a situa no interior da tradição espiritual cristã, relacionando-a às dimensões ascética e contemplativa da oração, veja: CHAN, Simon. Pentecostal Theology and the Christian Spiritual Tradition. Sheffield: Sheffield Academic Press, 2000. Veja também: CHAN, Simon. Evidential Glossolalia and the Doctrine of Subsequence. Asian Journal of Pentecostal Studies, v. 2, n. 2, p. 195-211, 1999. Isso não implica desprezo pela razão. Paulo afirma que orará com o espírito e também com a mente; cantará com o espírito e também com a mente (1Co 14.15). A alternativa bíblica não é entre entendimento e experiência, mas a integração dos dois.

A glossolalia não despreza a razão, mas desautoriza sua pretensão de autossuficiência. Ela nos recorda que Deus pode ser verdadeiramente conhecido sem jamais ser reduzido aos nossos conceitos. Há uma dimensão da oração que é inteligível, articulada e doutrinariamente instruída; há também momentos em que o fiel se coloca diante de Deus com uma linguagem que não domina cognitivamente.

Paulo escreveu aos romanos: “Também o Espírito, igualmente, nos ajuda em nossa fraqueza. Porque não sabemos orar como convém, mas o próprio Espírito intercede por nós com gemidos inexprimíveis” (Rm 8.26). Esse texto não deve ser usado como prova direta da glossolalia. No contexto de Romanos 8, os gemidos são atribuídos ao próprio Espírito, em solidariedade com os gemidos da criação e dos filhos de Deus. Ainda assim, o texto ilumina, por analogia, uma verdade importante: a oração cristã não depende da plena capacidade verbal do orante. O Espírito socorre nossa pobreza e conduz nossa oração para além daquilo que conseguimos formular.

Os textos mais diretos para a glossolalia como oração são encontrados em 1 Coríntios 14. Quem fala em línguas fala a Deus, pronuncia mistérios, ora e dá graças. A razão não é descartada, pois a interpretação torna o conteúdo acessível à comunidade. A glossolalia, portanto, não celebra a incompreensão como valor absoluto. Ela mantém uma tensão fecunda entre o mistério e a inteligibilidade, entre a oração que excede a compreensão do orante e a palavra interpretada que edifica o corpo.

Diante disso, surge sempre a pergunta: o sinal é realmente necessário? Ele não é necessário no sentido de que a graça divina dependa absolutamente de uma manifestação particular, como se ninguém pudesse ser salvo, habitado pelo Espírito ou usado por Deus sem falar em línguas. Também não deve ser empregado como medida completa da maturidade cristã. A igreja de Corinto possuía abundância de dons e, ao mesmo tempo, sofria com divisões, vaidade, imaturidade e graves problemas morais.

O sinal, contudo, pode ser chamado de necessário em um sentido de conveniência teológica ou adequação à experiência pentecostal: uma realidade que envolve a pessoa inteira tende naturalmente a encontrar expressão perceptível. Na gramática do pentecostalismo clássico, a glossolalia funciona como a evidência inicial e recorrente de que o fiel foi alcançado por uma ação do Espírito que ultrapassa sua capacidade natural de produzir o acontecimento 6Para uma defesa exegética da importância da manifestação externa na teologia lucana do Espírito, veja: MENZIES, Robert P. Pentecostes: essa história é a nossa história. Rio de Janeiro: CPAD, 2016. p. 57-84. A expressão “necessidade” deve ser entendida segundo a lógica da evidência pentecostal, não como condição para a salvação ou medida completa da vida cristã.7Sobre a importância histórica da glossolalia como sinal distintivo e prática de iniciação no pentecostalismo nascente, veja: WACKER, Grant. Heaven Below: Early Pentecostals and American Culture. Cambridge, MA: Harvard University Press, 2001..

Essa necessidade é sacramental, não soteriológica. O sinal não acrescenta mérito à pessoa nem estabelece uma categoria superior de cristãos. Ele serve à fé, à memória e à missão. Há séculos a Igreja Cristã reconhece a importância de sacramentos, músicas, símbolos, arquitetura, gestos e imagens verbais para tornar perceptíveis as realidades invisíveis. O ser humano necessita de sinais não porque Deus esteja ausente, mas porque nossa fé é frágil, corporal e dependente de lembranças concretas.

João Calvino definiu sacramento como “um símbolo externo com o qual o Senhor sela em nossas consciências as promessas de sua benevolência para conosco, a fim de dar sustentação à fraqueza de nossa fé e de que testemunhemos, por nossa vez, diante dele e dos anjos e entre os homens, nossa reverência para com ele” 8CALVINO, João. A Instituição da Religião Cristã. Tomo 2. São Paulo: Editora Unesp, 2009. p. 692. A definição corresponde à discussão de Calvino em Institutas IV.14.1. Para Calvino, o sacramento envolve a promessa anunciada pela Palavra e o sinal externo que a confirma à fraqueza humana.. Em sua formulação, o sacramento une a promessa divina, o sinal externo, o fortalecimento da fé e o testemunho público da comunidade.

Tomada nessa perspectiva, a glossolalia, enquanto sinal recorrente do batismo e da plenitude do Espírito Santo, possui uma força sacramental. É necessário, entretanto, reconhecer os limites da analogia. Em sentido estrito, a glossolalia não é um sacramento como o batismo nas águas e a Ceia do Senhor. Ela não possui um elemento material fixo, não é administrada pela igreja e não foi instituída por uma ordem dominical dirigida à comunidade para ser repetida segundo uma forma determinada.

Por essa razão, talvez seja mais preciso falar da glossolalia como sinal sacramental, sacramentalidade pentecostal ou sacramento em sentido analógico. O título “o sacramento pentecostal” deve ser compreendido como uma provocação teológica, não como a proposta de acrescentar oficialmente um novo sacramento à lista histórica da igreja.

A expressão clássica “forma visível de uma graça invisível” também precisa ser adaptada. No caso da glossolalia, trata-se de uma forma audível da ação invisível do Espírito. O sinal não é visto nem tocado, mas ouvido. A voz humana torna-se o lugar sensível de uma ação que o fiel confessa não ter produzido sozinho.

A glossolalia é, assim, uma espécie de ícone sonoro. Não representa a aparência de Deus nem oferece uma imagem de sua essência, mas aponta para sua presença ativa. A voz permanece humana, com timbre, respiração, ritmo e limitações corporais, ao mesmo tempo que a fala é recebida como dom. O sinal reúne agência humana e iniciativa divina sem confundir uma com a outra.

O falar em línguas desperta na congregação a memória de que o Espírito Santo continua capacitando a igreja a anunciar o Evangelho 9A relação entre linguagem sacramental e sinais extraordinários deve ser empregada analogicamente. A tradição da Reforma oferece categorias importantes de sinal, promessa e testemunho, mas isso não significa que Filipe Melâncton tenha classificado a glossolalia como sacramento. A referência deve ser consultada com essa ressalva: WENGERT, Timothy J. et al. Dictionary of Luther and the Lutheran Traditions. Grand Rapids: Baker Academic, 2017. p. 654.. Trata-se de uma memória de Pentecostes. A comunidade ouve e recorda que a promessa do Pai não pertence apenas ao passado apostólico. O mesmo Espírito que encheu a casa, atingiu as bocas dos discípulos e os enviou ao mundo continua presente entre o povo de Deus.

Essa memória não se reduz à repetição de um acontecimento antigo. No culto, o sinal estabelece uma ligação entre a narrativa bíblica, a experiência presente e a esperança futura. A igreja recorda Pentecostes, discerne a ação atual do Espírito e antecipa a comunhão escatológica de povos, tribos, línguas e nações diante de Deus. A glossolalia carrega, portanto, dimensões memorial, missionária e escatológica.

Assim como o Espírito nos concede falar em línguas de maneira sobrenatural, o Senhor Jesus também promete dar sabedoria e palavras aos seus discípulos quando estes forem chamados a testemunhar. Jesus disse: “Porque eu lhes darei palavras e sabedoria a que nenhum dos seus adversários poderá resistir nem contradizer” (Lc 21.15). Não se trata de identificar mecanicamente a promessa de Lucas 21 com a glossolalia, mas de reconhecer um mesmo princípio: a missão cristã depende da capacitação graciosa de Deus.

A igreja não anuncia o Evangelho apenas com sua competência natural, embora deva estudar, pensar, preparar-se e comunicar-se com clareza. Sua confiança última repousa na ação do Espírito, que toma capacidades humanas limitadas e as coloca a serviço do testemunho de Cristo.

A glossolalia, contudo, pode ser deformada. Todo sinal corre o risco de atrair para si a atenção que deveria dirigir à realidade significada. Quando a manifestação externa se torna mais importante do que aquilo para o qual aponta — a presença do Espírito, a edificação da igreja e o anúncio do Evangelho —, ela se converte em instrumento de vaidade e competição.

O sinal não pode tornar-se um ídolo. Falar em línguas não certifica automaticamente a maturidade, o caráter, a sabedoria ou a fidelidade de alguém. Também não autoriza a criação de uma aristocracia espiritual. A evidência inicial de uma experiência não deve ser confundida com a evidência permanente de uma vida no Espírito. Esta se manifesta no fruto, no amor, na santidade, no serviço, na comunhão e no testemunho perseverante.

A própria igreja de Corinto demonstra que a abundância carismática pode coexistir com profunda imaturidade. Por isso, Paulo não elimina os dons, mas os reinsere na ordem do amor. A resposta ao abuso não é a proibição da glossolalia, e sim seu exercício responsável: “Não proíbam o falar em línguas. Porém tudo seja feito com decência e ordem” (1Co 14.39-40).

A interpretação também é parte essencial dessa responsabilidade. Quando a língua se manifesta publicamente na assembleia, o dom da interpretação impede que a experiência permaneça fechada no indivíduo. Aquilo que começou como fala não compreendida pode tornar-se palavra de edificação compartilhada. A sacramentalidade pentecostal não é individualista. O Espírito distribui dons pessoais para o bem comum.

Portanto, a liturgia, para não cair no formalismo, precisa abrir espaço para práticas nas quais a plenitude dos sentidos e das faculdades humanas encontre lugar, isto é, nas quais Deus se comunique conosco por sua Palavra e por seu Espírito. Isso não significa perseguir sensações por elas mesmas. A presença de Deus não deve ser reduzida a arrepio, êxtase ou alteração emocional. Ela é reconhecida pelo senso real de que servimos ao Deus vivo, que fala, confronta, consola, cura, santifica e envia.

A liturgia autêntica envolve uma emoção compartilhada pela comunidade ao comungar os mesmos gestos, alegrias, sofrimentos e expectativas. Nela há uma relação vertical, porque o povo se volta para Deus, e uma relação horizontal, porque o mesmo Espírito forma a comunhão entre os irmãos. O culto não é apenas o lugar em que indivíduos buscam experiências privadas; é o espaço em que o corpo recebe dons para sua edificação.

É no contexto da comunidade reunida que o Espírito concede a graça dos carismas. A glossolalia, como sinal de sua presença ativa, recorda que Deus não abandonou a igreja à própria capacidade administrativa, intelectual ou retórica. Ao mesmo tempo, se a forma externa se tornar mais importante do que a realidade para a qual aponta — a glorificação de Cristo, a edificação da igreja e o anúncio do Evangelho —, teremos apenas uma tragédia de vaidades e pensamentos mesquinhos.

A sacramentalidade pentecostal não pode perder de vista que estamos diante de uma interação constante entre conhecimento e experiência vivida, entre o aprendizado sobre Deus e a experiência de Deus. Um depende continuamente do outro. A experiência sem a verdade bíblica perde seus critérios e pode transformar-se em autoengano. O conhecimento que nunca se abre à presença, à obediência e à adoração converte-se em informação religiosa estéril.

A glossolalia ocupa precisamente esse espaço de encontro. Ela não substitui a Palavra, mas responde à Palavra. Não elimina a razão, mas nega que a razão seja suficiente para esgotar a relação com Deus. Não dispensa a igreja, mas recebe sua finalidade no interior da comunidade. Não existe para exaltar o falante, mas para testemunhar que o Espírito continua sendo derramado sobre toda carne.

Nesse sentido analógico, a glossolalia pode ser chamada de sacramento pentecostal: uma palavra que o fiel não fabricou, um som que a comunidade pode ouvir e um sinal que aponta para a graça invisível daquele que enche, capacita e envia sua igreja.

Notas

  1. TED é a sigla de Technology, Entertainment and Design — em português, “Tecnologia, Entretenimento e Design”. A organização tornou-se conhecida por conferências e palestras breves voltadas à disseminação de ideias. A tradução “Planejamento” para Design deve ser evitada nesse contexto.Voltar ao texto ↑
  2. CAVALCANTI, Robinson. A Igreja, o País e o Mundo. 1. ed. Viçosa: Ultimato, 2000. p. 36.Voltar ao texto ↑
  3. Para uma crítica à antropologia racionalista presente em setores do protestantismo e uma exposição sobre o caráter formativo das práticas litúrgicas, veja: SMITH, James K. A. Você é aquilo que ama: o poder espiritual do hábito. 1. ed. São Paulo: Vida Nova, 2017.Voltar ao texto ↑
  4. MACCHIA, Frank D. Baptized in the Spirit: a Global Pentecostal Theology. Grand Rapids: Zondervan, 2006. p. 402.Voltar ao texto ↑
  5. Para uma interpretação teológica da glossolalia que a situa no interior da tradição espiritual cristã, relacionando-a às dimensões ascética e contemplativa da oração, veja: CHAN, Simon. Pentecostal Theology and the Christian Spiritual Tradition. Sheffield: Sheffield Academic Press, 2000. Veja também: CHAN, Simon. Evidential Glossolalia and the Doctrine of Subsequence. Asian Journal of Pentecostal Studies, v. 2, n. 2, p. 195-211, 1999.Voltar ao texto ↑
  6. Para uma defesa exegética da importância da manifestação externa na teologia lucana do Espírito, veja: MENZIES, Robert P. Pentecostes: essa história é a nossa história. Rio de Janeiro: CPAD, 2016. p. 57-84. A expressão “necessidade” deve ser entendida segundo a lógica da evidência pentecostal, não como condição para a salvação ou medida completa da vida cristã.Voltar ao texto ↑
  7. Sobre a importância histórica da glossolalia como sinal distintivo e prática de iniciação no pentecostalismo nascente, veja: WACKER, Grant. Heaven Below: Early Pentecostals and American Culture. Cambridge, MA: Harvard University Press, 2001.Voltar ao texto ↑
  8. CALVINO, João. A Instituição da Religião Cristã. Tomo 2. São Paulo: Editora Unesp, 2009. p. 692. A definição corresponde à discussão de Calvino em Institutas IV.14.1. Para Calvino, o sacramento envolve a promessa anunciada pela Palavra e o sinal externo que a confirma à fraqueza humana.Voltar ao texto ↑
  9. A relação entre linguagem sacramental e sinais extraordinários deve ser empregada analogicamente. A tradição da Reforma oferece categorias importantes de sinal, promessa e testemunho, mas isso não significa que Filipe Melâncton tenha classificado a glossolalia como sacramento. A referência deve ser consultada com essa ressalva: WENGERT, Timothy J. et al. Dictionary of Luther and the Lutheran Traditions. Grand Rapids: Baker Academic, 2017. p. 654.Voltar ao texto ↑