Meu caro irmão, o seu relato me trouxe um misto de sentimentos: tristeza e alegria. Fico triste ao perceber que tantas igrejas continuam adoecendo por conta de lideranças abusivas, teologias sem base bíblica, profecias forjadas, falsas promessas de prosperidade e um foco excessivo em poder, status e dinheiro. Por outro lado, alegro-me ao notar que você desenvolveu um olhar de discernimento fundamentado nas Escrituras para enxergar essa realidade, sem deixar de lado o seu desejo de preservar o fervor carismático e pentecostal.

Em primeiro lugar, tome cuidado para não construir sua nova identidade teológica apenas como reação ao neopentecostalismo. Depois de sofrer com abusos cometidos em nome de profecias, milagres, campanhas e experiências, é compreensível que o cessacionismo pareça um lugar seguro. Mas uma doutrina não deve ser abraçada somente porque funciona como proteção contra uma ferida. Às vezes, na tentativa de fugir de um extremo, corremos para o extremo oposto.

Você não precisa resolver agora se é pentecostal clássico, carismático, reformado carismático, arminiano ou calvinista. Estude com tranquilidade. Leia autores sérios de tradições diferentes. Releia a Bíblia sem a obrigação de chegar rapidamente a uma nova identidade. A maturidade bíblica também leva tempo — muito tempo. Muitas certezas precisarão ser desmontadas, mas outras talvez sejam recuperadas de maneira mais saudável.

É perfeitamente possível continuar sendo pentecostal e rejeitar o neopentecostalismo. Você pode crer na atualidade dos dons sem aceitar comércio espiritual, revelações extravagantes, campanhas financeiras, objetos ungidos, promessas de enriquecimento e autoridades que não podem ser questionadas. O abuso de uma realidade não prova que essa realidade não exista; prova que ela precisa ser discernida e submetida às Escrituras.

Também é importante distinguir a ação do Espírito Santo da cultura religiosa em que você foi formado. Talvez algumas experiências tenham sido interpretadas de maneira exagerada, manipuladas por líderes ou encaixadas à força em uma narrativa de sucesso espiritual. Isso, porém, não significa que toda oração intensa fosse falsa, que toda experiência com Deus fosse ilusória ou que todo fervor deva ser descartado. Nem tudo precisa ser preservado, mas também nem tudo precisa ser demolido. Parte do processo de cura consiste justamente em aprender a separar a presença de Deus dos mecanismos religiosos que se apropriaram dela.

Não permita que as pessoas que abusaram da linguagem do Espírito Santo roubem de você a possibilidade de continuar buscando o Espírito Santo. O neopentecostalismo não é proprietário da oração fervorosa, da expectativa de milagres, dos dons espirituais ou da experiência da presença de Deus. Tudo isso pertence à vida da igreja muito antes do surgimento dessas estruturas religiosas. Você pode recuperar essas práticas sem repetir os mesmos vícios, agora com mais sobriedade, discernimento e centralidade bíblica.

Não procure uma igreja perfeita, porque ela não existe, mas procure uma igreja saudável. Há uma diferença importante entre imperfeições normais de qualquer comunidade e padrões persistentes de abuso, manipulação e distorção do evangelho. Uma igreja saudável também terá conflitos, limitações e pessoas imaturas, mas saberá reconhecer erros, prestar contas, corrigir excessos e proteger os vulneráveis. O sinal de saúde não é a ausência absoluta de problemas, e sim a maneira como a comunidade reage quando eles aparecem. E cuidado com o cinismo: há muito mais igrejas saudáveis do que imaginamos em nossa vã busca por perfeição.

Também não permita que a vergonha pelo passado se transforme em desprezo pelas pessoas que ainda permanecem naquele ambiente. Muitas delas talvez estejam onde você esteve, tentando sinceramente servir a Deus com as categorias que receberam. Critique os sistemas, denuncie os abusos e rejeite as heresias, mas preserve a compaixão. A libertação de um ambiente religioso adoecido pode produzir uma espécie de orgulho retrospectivo, como se nunca tivéssemos sido realmente parte daquilo.

Se você está em busca de uma nova igreja, visite as igrejas com calma. Ouça as pregações, observe como os líderes falam sobre dinheiro, poder, política, sofrimento, cura e autoridade espiritual. Veja como tratam quem discorda, quem está ferido e quem não pode oferecer nada em troca. Mais importante do que uma declaração doutrinária impecável é perceber se a teologia confessada realmente molda a vida da comunidade. Muitas igrejas afirmam coisas corretas no papel, mas funcionam na prática por medo, personalismo e controle.

Não tenha a ansiedade de se tornar o “apologista” contra o neopentecostalismo, caçando heresias como quem percorre as redes sociais à procura de um corte de quinze segundos que renda indignação, engajamento e a sensação de estar sempre do lado certo. É compreensível que, depois de perceber tantos erros, você queira denunciá-los. Mas a fé cristã não pode ser reconstruída apenas pela oposição. Quem organiza toda a sua identidade em torno daquilo que combate continua, de alguma forma, preso ao objeto de sua revolta. O neopentecostalismo já ocupou espaço demais em sua vida; não permita que agora continue ocupando esse espaço pela via da reação permanente.

Por fim, leia tudo o que puder de bons teólogos pentecostais e carismáticos. Já existe muito material sério escrito ou traduzido para o português. Leia Robert P. Menzies, Craig Keener, Roger Stronstad, Paulo Romeiro, Esequias Soares, César Moisés, Valmir Nascimento, Donald Gee e Antonio Gilberto. Leia também Gordon Fee, Stanley Horton, William Menzies, Anthony D. Palma, French L. Arrington, entre outros. Não concordará com todos eles em tudo — nem deveria.

Leia meus livros também. Creio que eles poderão ajudá-lo nesse processo, especialmente porque foram escritos a partir de uma perspectiva pentecostal que procura unir experiência no Espírito, autoridade bíblica, discernimento teológico e responsabilidade pastoral. Você não precisa escolher entre profundidade bíblica e fervor espiritual. Essa oposição é falsa. O melhor da tradição pentecostal sempre entendeu que o Espírito que concede dons é o mesmo que inspirou as Escrituras, glorifica Cristo, forma o caráter cristão e conduz a igreja à verdade.