Em várias ocasiões, durante as eleições de 2022, ouvi de pessoas tanto à direita como à esquerda que eu precisava “me posicionar”. Na prática, posicionar-me significava apoiar abertamente o lado do bem contra o lado do mal — sendo o bem e o mal definidos, naturalmente, pela perspectiva de quem fazia a cobrança.
A depender do interlocutor, o Brasil estava na iminência de tornar-se uma ditadura comunista segundo o modelo venezuelano ou uma teocracia fascista, uma espécie de Talibã gospel com tonalidades de militarismo. O problema é que, quase sempre, “tomar posição” não significava julgar os fatos concretos. Significava aderir a um campo, aceitar sua narrativa integral e, sobretudo, suspender o juízo moral sobre os próprios aliados.
Eu me posicionei claramente.
Critiquei abertamente Jair Bolsonaro por seu golpismo, suas teorias conspiratórias, seu sectarismo e sua necropolítica, especialmente durante a pandemia da Covid-19. Critiquei, ainda, a vergonhosa mistura entre a fé evangélica e o bolsonarismo, que não apenas beirou a idolatria: em muitos casos, foi sua própria encarnação. O golpismo, aliás, deixou de ser apenas uma acusação política e recebeu posteriormente uma condenação judicial com o depoimento dos próprios comandantes das Forças Armadas.
O messianismo em torno de Bolsonaro é uma manifestação do espírito do anticristo em nosso meio (1Jo 2.18,22; 4.3). O anticristo não aparece somente quando alguém declara oposição verbal a Jesus. Ele também se manifesta quando uma figura humana ocupa o lugar da esperança, da lealdade e da confiança que pertencem somente a Cristo. Quando um político se torna imune à crítica, quando sua palavra é recebida como verdade final e quando sua vitória passa a ser confundida com a vitória do Reino de Deus, já atravessamos a fronteira entre a convicção política e a idolatria religiosa (Êx 20.3-5; Sl 146.3-5; Rm 1.25).
Ao mesmo tempo, para o incômodo de alguns amigos de esquerda, eu lembrava que Lula e o PT ajudaram decisivamente a consolidar, no Brasil pós-redemocratização, a gramática política do “nós contra eles”. Um dos exemplos mais evidentes foi a retórica da “herança maldita” recebida do governo Fernando Henrique Cardoso, como se o país anterior a 2003 fosse apenas um deserto econômico, institucional e social do qual o novo governo teria surgido como força redentora. A polarização brasileira teve um pai antes de ganhar um filho mais entusiasmado: Lula ajudou a estabelecer a linguagem; Bolsonaro a radicalizou até o delírio.
Também recordava o apoio de Lula não propriamente à ascensão de Hugo Chávez — que já governava a Venezuela desde 1999 —, mas à consolidação e à legitimação internacional do chavismo. Lula cultivou proximidade política e pessoal com Chávez, apoiou sua reeleição e posteriormente também a candidatura de Nicolás Maduro. Mesmo reconhecendo os atritos mais recentes entre o governo brasileiro e Maduro, essa história não pode ser apagada.
Lula apresenta-se, no Brasil, como defensor da democracia, mas carrega responsabilidade política por ter ajudado a normalizar um movimento que progressivamente destruiu a independência das instituições venezuelanas. A democracia não é uma virtude que se defende apenas dentro das próprias fronteiras. Quem relativiza o autoritarismo de seus aliados estrangeiros enfraquece sua autoridade para denunciar o autoritarismo de seus adversários domésticos.
Não há falsa equivalência nisso.
Criticar os dois lados não significa afirmar que sejam iguais. Pode-se dizer que ambos representam ameaças à democracia liberal, mas por caminhos, mecanismos e velocidades diferentes. O ataque frontal às urnas, a conspiração golpista e a mobilização de massas contra as instituições não são a mesma coisa que a corrosão gradual das regras, a ocupação patrimonialista do Estado ou a compra de apoio parlamentar. Ainda assim, a compra e venda de votos de parlamentares investigada e julgada na Ação Penal 470 (o famoso “mensalão”) também foi uma maneira de corromper o funcionamento das instituições e o Estado de Direito.
Um derrame cerebral não é a mesma coisa que um infarto. Possuem mecanismos diferentes, sintomas diferentes e podem exigir tratamentos diferentes. Isso não torna nenhum dos dois saudável.
A grande virtude eleitoral de Bolsonaro era não ser Lula, assim como a grande virtude eleitoral de Lula era não ser Bolsonaro. Num ambiente polarizado, cada candidato se alimentava moralmente da rejeição provocada pelo outro. Não precisava demonstrar excelência, claro, mas bastava apontar para o abismo do lado oposto.
Isso também não me impede de reconhecer acertos nos dois governos.
Em minha avaliação, Bolsonaro mais acertou do que errou na agenda econômica reformista. Durante seu governo foram aprovadas a Reforma da Previdência, o novo Marco Legal do Saneamento e a privatização da Eletrobras, além da continuidade e do aprofundamento da agenda de concorrência e inovação financeira, com o Pix (nascido no governo Temer), o Open Finance e a ampliação do espaço regulatório para as fintechs. É evidente que muitas dessas realizações dependeram do Congresso e, no caso da inovação financeira, sobretudo da atuação institucional do Banco Central. Não foram obras pessoais de Bolsonaro, embora tenham acontecido durante sua administração. O Ministério da Economia de Paulo Guedes promoveu a maior bancarização da nossa história - e isso foi excelente.
Tudo isso, porém, conviveu com um desastre institucional. Bolsonaro governou em conflito permanente com os limites constitucionais, com a imprensa, com o sistema eleitoral e com qualquer instituição que não se submetesse à sua vontade. Na pandemia, seu comportamento foi moralmente desastroso: converteu uma emergência sanitária em mais um episódio da guerra cultural e tratou a prudência científica como fraqueza política. A necropolítica gerou mortes, muitas mortes.
O governo Lula, por sua vez, demonstrou maior normalidade institucional e conseguiu aprovar a Reforma Tributária, uma transformação estrutural há décadas esperada. Também ajudou a destravar, concluir e assinar o acordo entre Mercosul e União Europeia — negociação que atravessou vários governos e que, portanto, não pertence exclusivamente a nenhum deles. Em março de 2026, o Congresso brasileiro ratificou a frente comercial do acordo, cuja aplicação provisória começou em maio daquele ano.
Maior institucionalidade, contudo, não significa ausência de erros profundos. Na política fiscal, o governo Lula tem promovido uma expansão perigosa das despesas, com metas continuamente flexibilizadas, exclusões legais que distanciam o resultado oficial do resultado efetivo e uma trajetória preocupante da dívida pública. O populismo econômico do presente cobra a conta no futuro: por meio de juros mais altos, crescimento menor, inflação, redução do investimento e perda da capacidade do Estado de proteger justamente os mais pobres. Em vez de financiar o desenvolvimento, corremos o risco de hipotecar o futuro para sustentar a popularidade imediata.
A corrupção, nos dois campos, quase dispensaria comentários. Sem antecipar a culpa individual de pessoas ainda investigadas, o simples fato de o escândalo do Banco Master alcançar nomes que vão do petista Jaques Wagner, aliado central de Lula no Senado, a Flávio Bolsonaro já diz muito sobre a promiscuidade entre poder político e poder econômico no Brasil. A corrupção brasileira é ecumênica: atravessa partidos, ideologias, governos e discursos moralistas.
Não se pode omitir, tampouco, o papel do Supremo Tribunal Federal (STF) nesse cenário de degradação institucional. Ao se envolver em polêmicas como o escândalo do Banco Master e ao perpetuar inquéritos que parecem não ter fim, a corte não apenas fragiliza sua própria credibilidade, como também demonstra que o desvio de finalidade não é exclusividade dos poderes Executivo ou Legislativo. Em uma democracia republicana, nenhuma instituição — por mais alta que seja — pode operar acima da crítica ou alheia ao escrutínio público; o silêncio diante de seus abusos apenas reforça a percepção de que a justiça, quando partidarizada ou corporativista, deixa de ser o baluarte da ordem para tornar-se, ela mesma, um agente de desequilíbrio.
Em 1962, Karl Barth escreveu uma carta ao amigo e também teólogo Josef L. Hromádka. Hromádka era socialista, vivia na Tchecoslováquia comunista e criticava severamente o capitalismo e a política externa ocidental. Barth não era um anticomunista vulgar. Também criticava o militarismo ocidental, a corrida nuclear, o capitalismo e a pretensão de identificar o Ocidente com o cristianismo. Seu problema com Hromádka era outro: ele parecia capaz de enxergar os pecados do Ocidente, mas não os do bloco ao qual se tornara politicamente simpático.
Barth percebeu que a crítica profética de Hromádka corria o risco de converter-se em propaganda. Por isso lhe escreveu:
“A paz de Deus, que excede todo entendimento, e, portanto, a justiça — no sentido bíblico da palavra — [é] tanto contra todos como em favor de todos.”1BARTH, Karl. “To Prof. Josef L. Hromádka, Prague, 18 December 1962”. In: FANGMEIER, Jürgen; STOEVESANDT, Hinrich (editores). Letters 1961–1968. Grand Rapids: William B. Eerdmans, 1981, p. 82–84. A tradução da passagem para o português é nossa.
Nem Barth nem eu defendemos uma posição desinteressada acima da história, uma neutralidade entre justiça e injustiça, uma igreja que se recuse a julgar acontecimentos concretos ou uma ética de equilíbrio automático entre esquerda e direita. Os profetas bíblicos nunca foram neutros. Natã confrontou Davi; Elias enfrentou Acabe; João Batista denunciou Herodes (2Sm 12.1-15; 1Rs 21.17-24; Mc 6.17-20).
A voz profética, contudo, não pertence previamente a um campo político. Ela pode, numa situação específica, concentrar sua crítica num dos lados, porque nem sempre os perigos são simétricos. Mas não concede imunidade permanente ao grupo com o qual circunstancialmente concorda. Não é necessário muito discernimento para perceber que, no instante em que nossa indignação se torna seletiva, a profecia cessa e dá lugar à propaganda.
A paz e a justiça de Deus são contra todos porque julgam a todos. “Todos pecaram e carecem da glória de Deus” (Rm 3.23). Nenhum partido, líder, governo ou ideologia atravessa ileso o tribunal divino. Deus não faz acepção de pessoas, e a igreja também não deveria fazê-la (Dt 10.17; At 10.34; Tg 2.1-9).
Ao mesmo tempo, a paz e a justiça de Deus são em favor de todos porque propõem uma reconciliação que nenhuma política humana consegue realizar. Em Cristo, Deus não reconciliou consigo apenas os progressistas, os conservadores, os capitalistas ou os socialistas: reconciliou o mundo consigo e confiou à igreja o ministério da reconciliação (2Co 5.18-20; Cl 1.19-20).
Posicionar-se, portanto, não é escolher uma venda para os olhos. É recusar-se a terceirizar a consciência.
É criticar Bolsonaro quando ele ataca a democracia, instrumentaliza a fé cristã e transforma a política em culto à personalidade. É criticar Lula quando ele relativiza regimes autoritários aliados, corrói a responsabilidade fiscal ou permite que a justiça social se transforme em pretexto para o populismo econômico. É denunciar a corrupção da direita e da esquerda, mesmo quando a denúncia causa desconforto entre nossos amigos.
Isso não é neutralidade, muito pelo contrário. É o tipo de posição disposto a desagradar a todos.
A igreja não foi chamada a ser capelã de uma facção, departamento religioso de um partido nem fábrica de justificativas espirituais para projetos de poder. Sua responsabilidade é lembrar a todos os Césares que eles continuam sendo apenas Césares e que nenhuma autoridade humana pode reivindicar aquilo que pertence somente a Deus (Mt 22.21).
A política pode conter o mal, proteger direitos, organizar a vida comum, promover justiça e criar condições para a paz. Não pode redimir o ser humano. A paz de Deus não cabe inteira em nenhum palanque. Ela vem contra todos os nossos ídolos e em favor de todas as pessoas. Julga a esquerda e a direita, o governo e a oposição, os vencedores e os derrotados. E, justamente porque julga a todos, impede-nos de desistir de qualquer um.
Notas
- BARTH, Karl. “To Prof. Josef L. Hromádka, Prague, 18 December 1962”. In: FANGMEIER, Jürgen; STOEVESANDT, Hinrich (editores). Letters 1961–1968. Grand Rapids: William B. Eerdmans, 1981, p. 82–84. A tradução da passagem para o português é nossa.Voltar ao texto ↑
