Amo as experiências pentecostais. Digo isso sem constrangimento, pois sou pentecostal, creio na atualidade dos dons espirituais, oro por avivamento e valorizo o culto em que a igreja canta com fervor, chora diante de Deus, glorifica com liberdade e responde ao Espírito Santo com o corpo, a voz, os afetos e a inteligência. Não tenho simpatia por uma religião seca, excessivamente cerebral, incapaz de se alegrar, lamentar, tremer, se render ou reconhecer que Deus nos alcança por inteiro. A fé bíblica nunca tratou o ser humano como uma mente isolada do corpo. A ação do Espírito alcança pensamento, vontade, memória, imaginação, emoções e disposições concretas da vida.
Recentemente estive em um culto em que a igreja foi tomada por um quebrantamento coletivo muito bonito. Nada ali parecia conduzido por uma técnica de palco. Não havia pressão sobre a congregação, nem apelos emocionais repetidos, nem aquela gritaria que tenta substituir a reverência por intensidade sonora. Um hino calmo começou a ser cantado, sem grandes estímulos musicais, sem recursos pensados para arrancar uma reação imediata, e, aos poucos, a congregação pareceu ganhar uma consciência muito viva da presença de Deus. O choro veio sem ser convocado. Os soluços apareceram sem que alguém os provocasse. Os glórias a Deus brotaram como resposta natural de uma igreja que, naquele momento, percebia que Deus tratava corações.
Essa é uma das belezas do pentecostalismo. Em seus melhores momentos, a liturgia pentecostal não sufoca a resposta da congregação. Ela abre espaço para que a igreja participe do culto com liberdade, sem transformar os membros em espectadores de um rito conduzido por especialistas religiosos. A oração não fica presa a uma formalidade rígida. O cântico não se reduz a uma apresentação musical distante do povo. A pregação espera resposta, arrependimento, consagração, louvor e mudança de vida. A comunidade aprende, na prática, que Deus não é uma ideia religiosa colocada no fim do sermão, e sim o Senhor vivo que fala, consola, corrige, cura, envia e santifica.
A confusão começa no momento em que espontaneidade passa a ser confundida com técnica emocional. Nem tudo que parece mover a igreja nasce de uma ação livre do Espírito. Nem todo choro vem de quebrantamento. Nem toda explosão de glória a Deus surge de uma percepção real da santidade divina. Há cultos em que a emoção é fabricada com habilidade, por meio de recursos conhecidos por qualquer pessoa minimamente atenta ao funcionamento de uma multidão. Certos ministros dominam o momento de abaixar a voz, repetir uma frase, pedir que o povo levante as mãos, fazer a banda crescer, inserir o teclado em tom menor, acelerar a bateria, gritar uma palavra de ordem e criar aquele clima de “agora vai”. Em geral, isso funciona. O povo reage, a igreja se agita, o vídeo fica bonito e a sensação de intensidade se espalha pelo ambiente. O ponto, porém, não é simplesmente perguntar se funcionou. A pergunta cristã é outra. Isso edificou de modo verdadeiro diante de Deus?
Muitos “hinos pentecostais” carregam macetes para produzir explosão de emoções. Às vezes, a repetição é planejada até o cansaço. Em outros casos, a pausa dramática antes do refrão já prepara a descarga afetiva. Há modulações feitas para elevar a tensão, frases de efeito que transformam o cântico em comando psicológico e arranjos montados para conduzir o povo a uma catarse previsível. Música, naturalmente, trabalha com memória, afeto, expectativa, intensidade, repouso e crescimento. Seria ingênuo negar isso. O problema surge a partir do momento em que esses recursos deixam de servir à adoração e passam a controlar a congregação. Nesse ponto, o culto deixa de conduzir a igreja à presença de Deus e começa a empurrar o povo para uma reação previamente programada.
O pentecostalismo precisa ter coragem de fazer essa autocrítica. Somos muito bons em denunciar o culto frio, engessado e sem vida. Fazemos isso com facilidade e, muitas vezes, com razão. Contudo, falamos pouco sobre o culto artificialmente quente, aquele em que a chama parece alta porque alguém jogou combustível emocional no ambiente. Há cultos que perdem vida por excesso de formalismo, assim como há cultos que parecem vivos porque aprenderam a manipular reações. Em um extremo, a liberdade é estrangulada; no outro, a verdade é substituída por uma sensação fabricada.
A Bíblia nunca opõe o Espírito à ordem. Ao tratar dos dons espirituais, Paulo não autoriza os coríntios a fazerem qualquer coisa em nome da liberdade carismática. Pelo contrário, ele ensina que a manifestação do Espírito é concedida para o proveito comum (1Co 12.7). Mais adiante, ao regular o culto comunitário, insiste que tudo deve concorrer para a edificação da igreja (1Co 14.26), pois Deus não é Deus de confusão (1Co 14.33). Sua conclusão é sóbria: tudo deve ocorrer com decência e ordem (1Co 14.40). Essa ordem não significa culto morto, previsível e incapaz de acolher a ação divina. Ela aponta para um culto inteligível, responsável, edificante, no qual a liberdade espiritual não se transforma em desculpa para vaidade humana, disputa de protagonismo ou descontrole emocional.
Ao mesmo tempo, ordem bíblica não deve ser confundida com controle carnal. O Espírito sopra onde quer (Jo 3.8). Ele distribui os dons conforme sua vontade (1Co 12.11). Ele pode surpreender a igreja, interromper nossa pressa, quebrantar em silêncio, levantar uma palavra profética, conduzir uma oração, trazer arrependimento por meio de um cântico simples e transformar uma reunião comum em um encontro memorável com Deus. O culto cristão precisa conservar espaço para essa liberdade. O discernimento necessário está justamente em perceber a diferença entre uma liturgia aberta ao Espírito e uma liturgia treinada para simular a ação do Espírito.
A emoção, em si, não é inimiga da fé. O povo de Deus chora, canta, dança, se prostra, lamenta, celebra, geme, espera e se alegra. Os Salmos seriam incompreensíveis sem a vida afetiva. Jesus chorou. A igreja primitiva orava com intensidade. A fé cristã nunca exigiu que o crente deixasse sua humanidade na porta do templo. O problema aparece onde a emoção passa a ser manipulada. A emoção recebida diante de Deus pode nos tornar mais humildes, santos, atentos ao próximo e obedientes à Palavra. A emoção fabricada costuma durar até o fim do culto e, com o tempo, pode tornar a pessoa dependente de estímulos cada vez mais fortes para sentir que Deus está presente.
Aqui há um perigo pastoral sério. Uma igreja acostumada a confundir presença de Deus com descarga emocional começa a estranhar os meios ordinários da graça. A leitura bíblica parece fraca. A oração simples parece sem unção. A pregação expositiva parece sem poder. O culto sem explosão parece vazio. Aos poucos, a comunidade passa a medir Deus pela temperatura do ambiente. Se chorou muito, Deus agiu. Se gritou muito, Deus visitou. Se a banda cresceu e a igreja respondeu, houve avivamento. Essa régua é perigosa, porque a obra do Espírito nem sempre vem acompanhada de barulho. O Espírito convence em silêncio, santifica no cotidiano, corrige por meio de uma palavra simples, cura a alma sem espetáculo e produz domínio próprio em vez de euforia (Gl 5.22,23).
Por isso, a liturgia pentecostal precisa ser espiritual e honesta. Espiritual, porque deve depender do Espírito Santo, e não apenas de repertório, técnica, iluminação, arranjo e habilidade de condução. Honesta, porque precisa parar de chamar de espontâneo aquilo que foi montado para parecer espontâneo. Há uma diferença enorme entre preparar bem um culto e fabricar uma reação. Preparar bem envolve escolher cânticos bíblicos, conduzir com sensibilidade, evitar bagunça, dar espaço à oração, cuidar do tempo, servir à igreja e manter Cristo no centro da adoração. Fabricar reação, por sua vez, transforma o povo em plateia emocional, como se a congregação existisse para responder aos botões psicológicos apertados por quem está à frente.
O ministro de louvor precisa examinar o próprio coração. Ele está ajudando a igreja a cantar a Deus ou treinando a igreja a responder aos seus comandos? O pregador também precisa encarar a mesma pergunta em seu ofício. Ele está expondo a Palavra e chamando o povo à obediência ou usando a voz, a pausa, a repetição e a frase de impacto para compensar a falta de conteúdo? A liderança, por sua vez, deve se perguntar se deseja formar uma igreja madura ou uma comunidade viciada em clímax. Essas perguntas incomodam, mas fazem parte do cuidado pastoral. O pentecostalismo maduro não tem medo do discernimento. Sem discernimento, a espiritualidade vira presa fácil da vaidade, da imitação e do espetáculo.
A espontaneidade verdadeira não exige ausência de forma. Toda igreja tem liturgia, mesmo aquela que diz não ter. Existe uma ordem, uma sequência, um jeito de cantar, orar, ofertar, pregar e encerrar. O pentecostalismo sempre teve seus próprios hábitos litúrgicos: o “glória a Deus”, o “aleluia”, a oração em voz alta, o cântico congregacional fervoroso, o apelo, a imposição de mãos, o espaço para testemunhos e a liberdade para a participação comunitária. Nada disso é ruim em si. O erro está em imaginar que, por sermos pentecostais, tudo que fazemos seja automaticamente espontâneo. Muitas vezes, repetimos padrões herdados sem perceber. Em outras, imitamos modelos de conferência, shows gospel e vídeos virais, depois damos a isso o nome de mover do Espírito.
A igreja pentecostal precisa recuperar a beleza da simplicidade. Um hino cantado com fé pode ser mais cheio de Deus do que uma sequência inteira montada para produzir catarse. Uma oração sincera pode carregar mais autoridade espiritual do que um grito ensaiado. Uma palavra bíblica, lida com reverência, pode quebrantar mais do que uma frase de impacto repetida vinte vezes. O Espírito Santo não depende de truques. Ele usa meios simples: a Palavra, a oração, o cântico, a comunhão, a Ceia, a confissão, o silêncio, a lágrima discreta, a exortação pastoral e a alegria congregacional. A ação divina não precisa falsificar grandeza.
A crítica à artificialidade litúrgica não deve empurrar a igreja para um culto sem calor espiritual. A tradição pentecostal possui recursos bíblicos e espirituais para trilhar um caminho melhor: fervor com verdade, liberdade com discernimento, emoção com fruto, ordem com abertura ao Espírito. Esse equilíbrio não nasce de um manual técnico, e sim de uma comunidade que ama a presença de Deus mais do que ama a sensação de estar em um culto poderoso.
Continuo amando as experiências pentecostais. Amo ver a igreja cantar enquanto algo santo parece atravessar o ambiente. Amo ouvir o povo orando junto e perceber o coração endurecido começando a ceder. Amo o choro que vem sem aviso, a Palavra que encontra a ferida exata, o exercício dos dons com reverência, a profecia que consola, a cura que glorifica Cristo, o arrependimento que muda a rota de alguém e a alegria que devolve esperança aos cansados. Amo essas coisas porque creio que o Espírito Santo é real. Justamente por isso, não quero vê-lo substituído por técnicas.
A liturgia pentecostal será mais fiel à sua vocação ao renunciar aos macetes que apenas imitam vida. O Espírito pode se manifestar no barulho, mas não é produzido pelo barulho. Pode usar a música, mas não obedece à música. Pode quebrantar no refrão, mas não é prisioneiro do refrão. Pode encher uma igreja inteira de lágrimas, soluços e glórias a Deus, sem depender de manipulação para isso. A experiência real não termina no arrepio. Ela nos leva a Cristo, nos submete à Palavra, nos torna mais santos, mais humildes, mais amorosos e mais obedientes.
Esse é o culto pentecostal que devemos desejar: vivo, verdadeiro, fervoroso, livre, ordenado, emocionalmente honesto e espiritualmente responsável. Um culto em que a igreja não precise ser empurrada para sentir algo, porque aprendeu a se render diante do Deus que realmente está presente.
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