Recentemente, o querido irmão e reverendo Augustus Nicodemus levantou, no podcast Inteligência Ltda., o seguinte argumento: se uma profecia contradiz a Bíblia, deve ser rejeitada; se está de acordo com a Bíblia, então basta ficar com a própria Bíblia. A primeira afirmação está correta. Todo pentecostal responsável deve rejeitar qualquer mensagem que negue, distorça ou pretenda acrescentar doutrinas à Palavra de Deus. A Escritura é a autoridade final, infalível e normativa para a fé e a vida cristã (Gl 1.8; 2Tm 3.15-17).
O problema está na segunda parte do argumento, que supõe que a profecia somente teria utilidade caso transmitisse alguma doutrina inédita. Essa não é, porém, a função atribuída por Paulo à profecia congregacional. Em 1Co 14, ela serve principalmente para edificar, exortar e consolar a comunidade (1Co 14.3). Seu valor não está em completar a revelação bíblica, mas em trazer uma palavra pertinente a determinada pessoa, necessidade ou circunstância. É uma espécie de discernimento aplicado de maneira sobrenatural.
A Bíblia também não ensina que a única função da profecia era trazer novas verdades canônicas. Ela própria apresenta profecias não canônicas e não doutrinárias, dirigidas a situações concretas da vida da igreja. As quatro filhas de Filipe profetizavam, mas nenhuma de suas palavras foi incorporada às Escrituras (At 21.9). Em Corinto, vários membros podiam profetizar sucessivamente para que todos fossem instruídos e encorajados, enquanto os demais avaliavam o que havia sido dito (1Co 14.29-31). Judas e Silas também fortaleceram os irmãos por meio de muitas palavras proféticas, sem que esse conteúdo se tornasse parte do cânon (At 15.32).
Uma mensagem não precisa apresentar uma verdade desconhecida ou uma nova doutrina para ser necessária. Grande parte do ministério cristão consiste em recordar e aplicar aquilo que o povo de Deus já conhece. Pedro escreveu a pessoas estabelecidas na verdade, mas julgou necessário despertá-las por meio da lembrança (2Pe 1.12-15). Paulo, de modo semelhante, disse a Timóteo que se lembrasse de Jesus Cristo, embora ele conhecesse profundamente o evangelho (2Tm 2.8). A questão não é apenas saber se algo é verdadeiro, mas perceber sua importância e sua urgência em determinada situação.
O mesmo acontece com a pregação. Um sermão fiel não acrescenta novas doutrinas à Bíblia, mas nem por isso é inútil. O pregador explica o texto, confronta erros, consola os aflitos e chama a igreja à obediência (2Tm 4.2). Caso o raciocínio cessacionista fosse aplicado de maneira consistente, poderíamos dizer: “Se o sermão é antibíblico, rejeite-o; se é bíblico, leia apenas a Bíblia”. Entretanto, a própria Escritura institui pregadores e mestres porque a verdade revelada precisa ser anunciada e aplicada à vida da comunidade (Ef 4.11-16). 1A comparação entre pregação e profecia é funcional, não uma identificação entre os dois dons. A pregação parte ordinariamente da exposição das Escrituras e possui autoridade derivada: ela obriga a consciência apenas na medida em que comunica fielmente o sentido do texto bíblico. A profecia congregacional, por sua vez, apresenta caráter mais espontâneo e circunstancial, razão pela qual deve ser submetida ao discernimento da comunidade (1Co 14.29). Veja: SIQUEIRA, Gutierres Fernandes. Como entender o dom da profecia hoje? Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2024. p. 12-16.
A profecia pode exercer uma função semelhante, embora não seja idêntica à pregação. Ela pode chamar a atenção da igreja para algo que precisa ser percebido naquele momento. Quando Ágabo anunciou uma grande fome, não ensinou uma nova doutrina. Sua palavra levou os discípulos a enviar ajuda aos irmãos da Judeia (At 11.27-30). A responsabilidade de cuidar dos necessitados já pertencia à ética cristã; a profecia mostrou onde e quando essa responsabilidade deveria ser exercida.
Em outra ocasião, Ágabo anunciou os sofrimentos que Paulo enfrentaria em Jerusalém (At 21.10-14). Novamente, nenhuma doutrina foi acrescentada ao evangelho. A mensagem preparou Paulo e a comunidade para uma situação específica. Em 1Co 14, Paulo também descreve uma profecia que manifesta os segredos do coração de um visitante, levando-o a reconhecer que Deus está realmente presente entre os cristãos (1Co 14.24-25). A novidade não estava em alguma doutrina sobre Deus, mas na maneira particular pela qual uma verdade divina alcançou aquela pessoa.
Esse raciocínio também confunde o Sola Scriptura com a Nuda Scriptura. O Sola Scriptura afirma que somente a Bíblia possui autoridade final e infalível. A Nuda Scriptura, em sua forma mais rígida, trata a Bíblia como se ela devesse funcionar isoladamente, sem pregação, ensino, aconselhamento, sabedoria comunitária ou dons espirituais. 2Nuda Scriptura — literalmente, “Escritura nua” — designa a concepção segundo a qual a Bíblia deveria ser recebida isoladamente, sem o auxílio subordinado da tradição cristã, dos credos, da comunidade interpretativa e de outras formas legítimas de autoridade e edificação eclesial. Essa posição, também chamada de solo Scriptura, não corresponde ao princípio reformado do Sola Scriptura: este afirma que somente a Escritura é infalível e possui autoridade normativa final, sem negar a existência de autoridades e meios eclesiais subordinados. A aplicação do conceito aos dons espirituais é analógica: assim como a pregação e o ensino, eles não concorrem com a Escritura, mas devem permanecer sujeitos ao seu julgamento. Veja: VANHOOZER, Kevin J. Biblical Authority after Babel: Retrieving the Solas in the Spirit of Mere Protestant Christianity. Grand Rapids: Brazos Press, 2016, p. 111, 120–121. Em português: VANHOOZER, Kevin J. Autoridade bíblica pós-Reforma. São Paulo: Edições Vida Nova, 2017. A própria Escritura, porém, reconhece esses meios como instrumentos legítimos de edificação, desde que permaneçam subordinados à Palavra (Rm 12.6-8; 1Co 12.4-11). A Bíblia não é o único meio pelo qual Deus edifica a igreja; ela é a norma suprema pela qual todos os meios devem ser avaliados.
Por isso, a suficiência das Escrituras não significa que Deus deixou de consolar, advertir ou orientar seu povo. Significa que nenhuma palavra contemporânea pode criar doutrinas, corrigir o evangelho ou obrigar a consciência cristã com autoridade semelhante à do texto inspirado. A Bíblia contém tudo o que é necessário para conhecermos a salvação, discernirmos a vontade moral de Deus e vivermos em fidelidade. Os dons não suprem uma deficiência da Escritura; servem à igreja que vive sob sua autoridade.
Essa distinção explica por que Paulo não manda aceitar qualquer profecia, mas também não permite desprezá-las indiscriminadamente. Os profetas deveriam falar, enquanto os demais avaliavam o que havia sido dito (1Co 14.29). Aos tessalonicenses, o apóstolo ordenou: “Não apaguem o Espírito. Não desprezem as profecias. Examinem todas as coisas, retenham o que é bom” (1Ts 5.19-21, NAA). O discernimento pressupõe que a profecia pode ser genuína, mas também que é transmitida por pessoas falíveis e precisa ser julgada.
A Escritura, portanto, não é colocada ao lado da profecia como uma autoridade concorrente. Ela permanece acima dela. A profecia é examinada; a Bíblia é o critério do exame. Uma mensagem profética nunca deve estabelecer doutrinas, controlar autoritariamente decisões pessoais ou ser apresentada como infalível. Seu propósito é edificar, exortar e consolar, sempre debaixo da autoridade da Palavra.
O erro do argumento cessacionista está em criar uma falsa escolha entre Bíblia e profecia. A igreja não busca profecias porque a Escritura seja incompleta, mas porque o Espírito continua presente no corpo de Cristo e distribui dons para sua edificação (1Co 12.7-11). O caminho bíblico não é aceitar tudo nem rejeitar tudo. É desejar os dons, submeter cada manifestação à Palavra e reter aquilo que, depois de examinado, se mostra bom (1Co 14.1,39-40; 1Ts 5.19-21).
Notas
- A comparação entre pregação e profecia é funcional, não uma identificação entre os dois dons. A pregação parte ordinariamente da exposição das Escrituras e possui autoridade derivada: ela obriga a consciência apenas na medida em que comunica fielmente o sentido do texto bíblico. A profecia congregacional, por sua vez, apresenta caráter mais espontâneo e circunstancial, razão pela qual deve ser submetida ao discernimento da comunidade (1Co 14.29). Veja: SIQUEIRA, Gutierres Fernandes. Como entender o dom da profecia hoje? Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2024. p. 12-16.Voltar ao texto ↑
- Nuda Scriptura — literalmente, “Escritura nua” — designa a concepção segundo a qual a Bíblia deveria ser recebida isoladamente, sem o auxílio subordinado da tradição cristã, dos credos, da comunidade interpretativa e de outras formas legítimas de autoridade e edificação eclesial. Essa posição, também chamada de solo Scriptura, não corresponde ao princípio reformado do Sola Scriptura: este afirma que somente a Escritura é infalível e possui autoridade normativa final, sem negar a existência de autoridades e meios eclesiais subordinados. A aplicação do conceito aos dons espirituais é analógica: assim como a pregação e o ensino, eles não concorrem com a Escritura, mas devem permanecer sujeitos ao seu julgamento. Veja: VANHOOZER, Kevin J. Biblical Authority after Babel: Retrieving the Solas in the Spirit of Mere Protestant Christianity. Grand Rapids: Brazos Press, 2016, p. 111, 120–121. Em português: VANHOOZER, Kevin J. Autoridade bíblica pós-Reforma. São Paulo: Edições Vida Nova, 2017.Voltar ao texto ↑
