Gênesis
Gênesis 1
Tradução1 No princípio,(1)“No princípio”. Palavra original: בְּרֵאשִׁית. Transliteração: bĕrēʾšît. Significado básico: “no princípio”, “no começo” ou “quando começou”.. A palavra deriva de רֹאשׁ, rōʾš, “cabeça”, “início” ou “parte principal”. A construção hebraica permite alguma discussão sintática: o versículo pode ser entendido como uma afirmação independente — “No princípio, Deus criou” — ou como uma oração temporal ligada ao que segue — “Quando Deus começou a criar”. A primeira leitura, adotada aqui, corresponde melhor à cadência solene da abertura e à acentuação massorética, embora a segunda seja gramaticalmente possível. O versículo não emprega uma expressão técnica equivalente a “criação a partir do nada”. A doutrina cristã da creatio ex nihilo resulta da leitura canônica e teológica mais ampla das Escrituras, e não apenas da semântica isolada desta palavra. Deus criou os céus e a terra.(2)“Os céus e a terra”. Palavra original: אֵת הַשָּׁמַיִם וְאֵת הָאָרֶץ. Transliteração: ʾēt haššāmayim wĕʾēt hāʾāreṣ. Significado básico: “os céus e a terra”.. A expressão forma um merismo: dois extremos são mencionados para designar a totalidade. “Os céus e a terra” significa, portanto, todo o mundo ordenado, tudo o que existe no âmbito da criação. O plural שָׁמַיִם, šāmayim, é a forma normal da palavra hebraica para “céus” e não implica necessariamente uma doutrina de vários níveis celestes.
2 A terra era desolação e vazio;(3)“Desolação e vazio”. Palavra original: תֹהוּ וָבֹהוּ. Transliteração: tōhû wābōhû. Significado básico: “desolação e vazio”, “ermo e vazio”.. A expressão possui forte efeito sonoro, quase impossível de reproduzir integralmente em português. O primeiro termo, tōhû, descreve algo ermo, inútil, desordenado ou inabitável; bōhû, termo muito mais raro, indica vazio ou ausência de conteúdo. “Sem forma e vazia”, tradução tradicional, pode sugerir uma reflexão filosófica sobre matéria informe. O hebraico, porém, descreve sobretudo uma terra ainda não organizada como ambiente habitável e ainda não preenchida por seres vivos. A narrativa responderá aos dois problemas: nos três primeiros dias, Deus ordena os espaços; nos três seguintes, preenche-os. havia trevas sobre a face do abismo,(4)“Abismo”. Palavra original: תְּהוֹם. Transliteração: tĕhôm. Significado básico: “profundidade”, “oceano primordial”, “abismo aquático”.. O termo designa a massa profunda das águas. Em outros textos bíblicos, pode referir-se às profundezas do mar ou às águas subterrâneas. A imagem pertence à cosmologia do antigo Oriente Próximo, na qual as águas representam o mundo ainda não delimitado e organizado. Embora tĕhôm seja frequentemente comparado ao nome da divindade mesopotâmica Tiamat, Gênesis não apresenta o abismo como uma deusa nem descreve uma batalha entre Deus e uma potência rival. O abismo já está sob a presença e a autoridade de Deus. e o Espírito de Deus(5)“O Espírito de Deus”. Palavra original: רוּחַ אֱלֹהִים. Transliteração: rûaḥ ʾĕlōhîm. Significado básico: “Espírito de Deus”, “vento de Deus” ou “sopro de Deus”.. A palavra רוּחַ, rûaḥ, reúne sentidos que o português distribui entre “vento”, “sopro”, “respiração” e “espírito”. Alguns intérpretes entendem a expressão como “um vento poderoso” ou “um vento vindo de Deus”, porque o nome divino pode, em determinadas construções hebraicas, intensificar uma qualidade. No entanto, a tradução tradicional “Espírito de Deus” é antiga, gramaticalmente plausível e se harmoniza com o papel criador e vivificador atribuído ao Espírito em outros textos bíblicos. A escolha preserva a dimensão pessoal e teológica da expressão. O Espírito de Deus paira sobre as águas ainda não ordenadas, antecipando a palavra divina que fará surgir um mundo habitável, fecundo e cheio de vida. pairava(6)“Pairava”. Palavra original: מְרַחֶפֶת. Transliteração: mĕraḥepet. Significado básico: “pairava”, “adejava”, “tremulava sobre”.. O verbo רָחַף, rāḥap, descreve um movimento vibrante ou protetor. Em Dt 32.11, é empregado para a águia que adeja sobre seus filhotes. A imagem sugere movimento, presença e cuidado potencial, sem que seja necessário imaginar literalmente uma ave. “Pairava” preserva a quietude tensa da cena: sobre as águas escuras, a presença divina não está ausente nem ameaçada; encontra-se suspensa, prestes a agir. sobre a face das águas.
3 Deus disse:
— Haja luz!
E houve luz.(7)“Haja luz! E houve luz”. Palavra original: יְהִי אוֹר וַיְהִי־אוֹר. Transliteração: yĕhî ʾôr wayĕhî ʾôr. Significado básico: “seja luz — e foi luz”.. O hebraico produz uma das frases mais breves e sonoras de toda a narrativa. O mesmo verbo aparece na ordem e no cumprimento, criando correspondência imediata entre palavra e realidade. Deus não luta, fabrica instrumentos nem recorre a auxiliares: ele fala, e o que diz acontece. A tradução “Haja luz! E houve luz” conserva a concisão, a repetição e o caráter performativo da fala divina.
4 Deus viu que a luz era boa(8)“Boa”. Palavra original: טוֹב. Transliteração: ṭôb. Significado básico: “bom”, “belo”, “adequado”, “benéfico”.. O termo não indica apenas bondade moral. No contexto da criação, significa que aquilo que Deus fez corresponde à sua finalidade, funciona adequadamente e contribui para a ordem do conjunto. A criação é boa porque se mostra fecunda, ordenada e apropriada à vida. A fórmula “Deus viu que era bom” aparece sete vezes no capítulo, alcançando seu ponto culminante em “muito bom”, no v. 31. e separou a luz das trevas. 5 Deus chamou à luz “Dia” e às trevas chamou “Noite”.
Houve tarde e houve manhã: dia um.(9)“Dia um”. Palavra original: יוֹם אֶחָד. Transliteração: yôm ʾeḥād. Significado básico: “dia um” ou “um dia”.. O hebraico não emprega o ordinal “primeiro”, mas o numeral cardinal “um”. Nos dias seguintes, aparecem “segundo”, “terceiro” e assim por diante. “Dia um” preserva essa diferença deliberada e apresenta o primeiro dia como o estabelecimento da própria unidade pela qual os demais serão contados. “Primeiro dia” seria mais idiomático em português, mas apagaria uma pequena singularidade literária do texto hebraico.
6 Deus disse:
— Haja uma abóbada(10)“Abóbada”. Palavra original: רָקִיעַ. Transliteração: rāqîaʿ. Significado básico: “extensão”, “superfície estendida”, “abóbada”.. A palavra está relacionada ao verbo רָקַע, rāqaʿ, “estender”, “espalmar” ou “bater uma lâmina”. Na representação cosmológica pressuposta pelo texto, o céu é concebido como uma grande extensão que separa as águas superiores das inferiores. “Firmamento” é tradicional, mas pode não comunicar mais ao leitor moderno a imagem original. “Abóbada” torna mais perceptível a concepção espacial do narrador. Trata-se de linguagem cosmológica antiga, empregada para proclamar quem ordena o mundo, e não de uma descrição científica em terminologia moderna. entre as águas, para separar águas de águas.
7 Deus fez a abóbada e separou as águas que estavam debaixo da abóbada das águas que estavam acima dela.
E assim aconteceu.
8 Deus chamou à abóbada “Céus”.
Houve tarde e houve manhã: segundo dia.
9 Deus disse:
— Juntem-se num só lugar as águas que estão debaixo dos céus, e apareça a porção seca.(11)“Porção seca”. Palavra original: הַיַּבָּשָׁה. Transliteração: hayyabbāšâ. Significado básico: “a parte seca”, “terra seca”.. Antes de receber o nome “Terra”, o solo aparece simplesmente como aquilo que não está coberto pelas águas. A retirada ou reunião das águas torna visível o espaço habitável. O movimento não é propriamente o de criar nova matéria, mas o de delimitar, separar e revelar. O ato de nomear “Terra” e “Mares” manifesta autoridade: Deus determina a identidade e a função dos grandes domínios da criação.
E assim aconteceu.
10 Deus chamou à porção seca “Terra” e ao ajuntamento das águas chamou “Mares”.
Deus viu que era bom.
11 Deus disse:
— Faça a terra brotar vegetação: plantas que produzam semente e árvores frutíferas que produzam fruto segundo suas espécies,(12)“Segundo suas espécies”. Palavra original: לְמִינֵהוּ. Transliteração: lĕmînēhû. Significado básico: “segundo sua espécie” ou “conforme seu tipo”.. מִין, mîn, refere-se a agrupamentos reconhecíveis de plantas e animais. Não corresponde precisamente ao conceito moderno e técnico de “espécie” na taxonomia biológica. O texto enfatiza regularidade, diversidade ordenada e capacidade de reprodução. A repetição da expressão mostra que a fecundidade não produz caos: a vida se multiplica segundo padrões estabelecidos. com sua semente dentro dele, sobre a terra.
E assim aconteceu.
12 A terra fez brotar vegetação: plantas que produziam semente segundo suas espécies e árvores que produziam fruto, com sua semente dentro dele, segundo suas espécies.
Deus viu que era bom.
13 Houve tarde e houve manhã: terceiro dia.
14 Deus disse:
— Haja luminares na abóbada dos céus para separar o dia da noite. Sirvam de sinais para os tempos determinados,(13)“Tempos determinados”. Palavra original: מוֹעֲדִים. Transliteração: môʿădîm. Significado básico: “tempos marcados”, “ocasiões determinadas”, “festas estabelecidas”.. A palavra pode designar estações do ano, datas fixadas ou festividades religiosas. Na tradição sacerdotal, à qual Gênesis 1 costuma ser associado, môʿădîm possui forte relação com o calendário litúrgico de Israel. Os luminares não apenas iluminam: organizam o tempo humano, agrícola e cultual. “Tempos determinados” preserva a amplitude da expressão, sem reduzi-la somente às estações climáticas ou somente às festas religiosas. para os dias e os anos. 15 Sirvam de luminares na abóbada dos céus, para iluminar a terra.
E assim aconteceu.
16 Deus fez os dois grandes luminares:(14)“Luminares”. Palavra original: מְאֹרֹת. Transliteração: mĕʾōrōt. Significado básico: “fontes de luz”, “luminares”.. O texto não chama diretamente os dois astros de “Sol” e “Lua”, mas de “luminar maior” e “luminar menor”. Não se pode demonstrar que essa omissão seja exclusivamente uma polêmica contra os cultos solares e lunares do antigo Oriente Próximo, mas seu efeito literário é inequívoco: os astros não são divindades, e sim objetos feitos e colocados por Deus. Até as estrelas, frequentemente associadas a poderes divinos ou à determinação do destino, aparecem quase como um acréscimo discreto: “e também as estrelas”. o luminar maior para governar(15)“Governar”. Palavra original: מֶמְשֶׁלֶת. Transliteração: memšelet. Significado básico: “governo”, “domínio”, “função governante”.. Os luminares “governam” o dia e a noite ao regular seus ciclos e iluminar seus respectivos períodos. Sua autoridade é funcional e delegada: eles exercem uma tarefa que Deus lhes atribuiu. A mesma lógica reaparece na criação humana. Governar, em Gênesis 1, não significa possuir autonomia diante de Deus, mas exercer uma responsabilidade dentro da ordem estabelecida por ele. o dia, o luminar menor para governar a noite — e também as estrelas. 17 Deus os colocou na abóbada dos céus para iluminar a terra, 18 governar o dia e a noite e separar a luz das trevas.
Deus viu que era bom.
19 Houve tarde e houve manhã: quarto dia.
20 Deus disse:
— Fervilhem as águas de seres vivos,(16)“Fervilhem as águas”. Palavra original: יִשְׁרְצוּ הַמַּיִם שֶׁרֶץ. Transliteração: yišrĕṣû hammayim šereṣ. Significado básico: “fervilhem as águas de um fervilhar”.. O hebraico aproxima palavras da mesma raiz: o verbo “fervilhar” e o substantivo “enxame” ou “multidão de seres”. A construção comunica abundância, movimento e quase permite ouvir a agitação das águas agora cheias de vida. “Fervilhem as águas de seres vivos” procura conservar essa energia sem produzir uma frase excessivamente artificial em português. e voem aves sobre a terra, diante da abóbada dos céus.
21 Deus criou os grandes monstros marinhos(17)“Grandes monstros marinhos”. Palavra original: הַתַּנִּינִם הַגְּדֹלִים. Transliteração: hattannînîm haggĕdōlîm. Significado básico: “os grandes monstros aquáticos”, “as grandes criaturas marinhas”.. תַּנִּין, tannîn, pode designar grandes animais aquáticos, serpentes ou monstros associados ao caos. Em outros textos poéticos, criaturas semelhantes aparecem como inimigos simbólicos derrotados por Deus. Aqui, porém, não há combate. As criaturas que em outras culturas poderiam representar poderes divinos ou caóticos são simplesmente criadas por Deus. “Monstros marinhos” preserva essa ressonância mitopoética, enquanto “grandes animais marinhos” seria mais neutro, mas perderia parte da força cultural do termo. e todos os seres vivos que se movem, dos quais as águas fervilharam, segundo suas espécies, e toda ave alada, segundo sua espécie.
Deus viu que era bom.
22 Deus os abençoou,(18)“Abençoou”. Palavra original: וַיְבָרֶךְ. Transliteração: waybārek. Significado básico: “e abençoou”.. Esta é a primeira ocorrência explícita da bênção divina na Bíblia. A bênção não consiste apenas em palavras de aprovação: ela comunica capacidade de gerar vida, multiplicar-se e ocupar o espaço concedido por Deus. A fecundidade das criaturas não é independente nem acidental; é um dom que procede da palavra de Deus. dizendo:
— Sejam fecundos, multipliquem-se e encham as águas dos mares; e multipliquem-se as aves sobre a terra.
23 Houve tarde e houve manhã: quinto dia.
24 Deus disse:
— Produza a terra seres vivos(19)“Seres vivos”. Palavra original: נֶפֶשׁ חַיָּה. Transliteração: nepeš ḥayyâ. Significado básico: “criatura viva”, “ser vivente”.. נֶפֶשׁ, nepeš, não significa necessariamente uma “alma” imaterial separável do corpo. Pode indicar a vida, a garganta, o desejo, a pessoa ou o ser vivo inteiro. A mesma expressão é empregada para animais e, em Gn 2.7, para o ser humano. “Seres vivos” evita introduzir no texto uma divisão antropológica entre corpo e alma que não está presente nesta expressão. segundo suas espécies: animais domésticos, animais que rastejam e animais selvagens da terra, segundo suas espécies.
E assim aconteceu.
25 Deus fez os animais selvagens da terra segundo suas espécies, os animais domésticos segundo suas espécies e todos os animais que rastejam sobre o solo segundo suas espécies.
Deus viu que era bom.
26 Deus disse:
— Façamos o ser humano(20)“Ser humano”. Palavra original: אָדָם. Transliteração: ʾādām. Significado básico: “ser humano”, “humanidade”, “Adão”.. Sem artigo e dependendo do contexto, ʾādām pode ser um nome próprio ou uma designação do ser humano. Em Gn 1.26-27, a referência é coletiva: Deus cria a humanidade, que posteriormente é diferenciada como homem e mulher. “Ser humano” evita que o leitor entenda “homem” exclusivamente como indivíduo masculino. A alternância posterior entre o singular “o criou” e o plural “os criou” confirma o caráter simultaneamente uno e coletivo da humanidade. à nossa imagem, conforme a nossa semelhança;(21)“Façamos”. Palavra original: נַעֲשֶׂה. Transliteração: naʿăśeh. Significado básico: “façamos”.. O plural tem recebido diversas explicações. A interpretação histórico-literária mais provável é que Deus fale diante de sua corte celestial, o conselho dos seres celestes que aparece em textos como 1Rs 22.19-22, Jó 1–2 e Is 6.1-8. Isso não significa que tais seres participem da criação humana: no v. 27, o verbo volta ao singular, e somente Deus cria. Outras propostas incluem um plural de deliberação ou uma forma de autoexortação. O chamado “plural de majestade”, embora popular, não é bem documentado nos verbos do hebraico bíblico desse período. A tradição cristã leu legitimamente o plural à luz da revelação posterior do Pai, do Filho e do Espírito. Essa leitura canônica e trinitária, contudo, deve ser distinguida da explicação gramatical e histórica imediata da expressão. que eles governem(22)“Imagem” e “semelhança”. Palavra original: צֶלֶם e דְּמוּת. Transliteração: ṣelem e dĕmût. Significado básico: “imagem” e “semelhança”.. צֶלֶם, ṣelem, pode designar uma estátua ou representação visível; דְּמוּת, dĕmût, ressalta correspondência ou semelhança. O paralelismo do texto indica que os dois termos se explicam mutuamente, e não necessariamente que descrevam duas partes distintas da natureza humana. No antigo Oriente Próximo, reis podiam ser considerados imagens dos deuses e instalar suas estátuas como sinais de autoridade. Gênesis democratiza radicalmente essa linguagem: não apenas o rei, mas toda a humanidade, homem e mulher, representa Deus no mundo. Ser imagem de Deus envolve dignidade, relação e vocação. Os seres humanos são representantes vivos do governo divino, embora jamais sejam divinos nem independentes de seu Criador. os peixes do mar, as aves dos céus, os animais domésticos, toda a terra e todos os animais que rastejam sobre a terra.(23)“Que eles governem”. Palavra original: וְיִרְדּוּ. Transliteração: wĕyirdû. Significado básico: “e que eles dominem”, “governem” ou “exerçam autoridade”.. O verbo está no plural, embora “ser humano” apareça no singular coletivo. A mudança prepara o v. 27: a humanidade é uma unidade, mas existe concretamente na pluralidade de homens e mulheres. O domínio humano não é apresentado como licença para devastar. Por ser exercido por criaturas feitas à imagem de Deus, deve refletir o governo do próprio Deus, que organiza, dá vida, abençoa e considera boa a existência das outras criaturas.
27 Deus criou o ser humano à sua imagem;
à imagem de Deus o criou;
homem e mulher os criou.(24)“Homem e mulher”. Palavra original: זָכָר וּנְקֵבָה. Transliteração: zākār ûnĕqēbâ. Significado básico: “macho e fêmea”, “masculino e feminino”.. Os termos hebraicos destacam a diferenciação sexual. “Homem e mulher” foi escolhido porque soa mais digno e natural quando aplicado a pessoas em português, embora “macho e fêmea” seja lexicalmente mais direto. O verso possui estrutura poética em três linhas. A primeira afirma que o ser humano foi criado à imagem de Deus; a segunda repete e intensifica essa afirmação; a terceira esclarece que a imagem divina pertence igualmente ao homem e à mulher. Nenhum dos dois sexos representa Deus de maneira mais plena que o outro.
28 Deus os abençoou e lhes disse:
— Sejam fecundos, multipliquem-se, encham a terra e sujeitem-na;(25)“Sujeitem-na”. Palavra original: וְכִבְשֻׁהָ. Transliteração: wĕkibšuhā. Significado básico: “submetam-na”, “sujeitem-na”, “coloquem-na sob domínio”.. O verbo כָּבַשׁ, kābaš, é forte e pode ser empregado para subjugação territorial. Aqui indica que a terra ainda exige trabalho humano para que suas potencialidades sejam desenvolvidas e seus espaços sejam habitados. O mandato não autoriza exploração irresponsável. O contexto imediato restringe a violência: homens e animais recebem plantas como alimento, e a criação inteira acaba de ser declarada boa. A autoridade humana é real, mas permanece subordinada à bondade e à finalidade do Criador. governem os peixes do mar, as aves dos céus e todo ser vivo que se move sobre a terra.
29 Deus disse:
— Eis que lhes dou todas as plantas que produzem semente sobre a face de toda a terra e todas as árvores cujo fruto contém semente. Elas lhes servirão de alimento. 30 E a todos os animais da terra, a todas as aves dos céus e a todo ser que se move sobre a terra, em que há vida, dou toda planta verde por alimento.
E assim aconteceu.
31 Deus viu tudo o que havia feito, e eis que era muito bom.(26)“Muito bom”. Palavra original: טוֹב מְאֹד. Transliteração: ṭôb mĕʾōd. Significado básico: “muito bom”, “excepcionalmente bom”.. Até aqui, elementos particulares haviam sido considerados “bons”. Agora Deus contempla “tudo o que havia feito”, e a avaliação recai sobre o conjunto. A bondade plena não está apenas em cada criatura isolada, mas nas relações ordenadas entre luz, tempo, águas, terra, plantas, animais e humanidade. A expressão não afirma que o mundo já tenha alcançado toda maturidade possível. A humanidade ainda deverá cultivar, multiplicar-se e ocupar a terra. O mundo é “muito bom” como criação íntegra, fecunda e apta a desenvolver-se segundo a bênção de Deus.
Houve tarde e houve manhã: o sexto dia.(27)“O sexto dia”. Palavra original: יוֹם הַשִּׁשִּׁי. Transliteração: yôm haššiššî. Significado básico: “o sexto dia”.. Diferentemente dos dias anteriores, o sexto recebe o artigo definido: “o sexto dia”. A pequena alteração confere peso ao encerramento da série e prepara o leitor para o sétimo dia, narrado em Gn 2.1-3. A divisão moderna dos capítulos separa artificialmente o repouso do sétimo dia da narrativa dos seis dias. Literariamente, Gn 1.1–2.3 constitui uma unidade: a criação não culmina simplesmente no ser humano, mas no descanso divino e na santificação do tempo.
Leitura literária
Aspectos literários do texto
Gênesis 1 não possui a forma de um relato improvisado ou de uma enumeração casual de eventos. O capítulo foi cuidadosamente composto por meio de fórmulas recorrentes, paralelismos, repetições sonoras e progressões temáticas. Sua solenidade nasce justamente da combinação entre simplicidade vocabular e rigor arquitetônico. A linguagem é acessível, mas sua construção é altamente elaborada.
A abertura apresenta o problema narrativo em uma única frase concentrada: “A terra era desolação e vazio; havia trevas sobre a face do abismo”. O mundo ainda não está preparado para a vida. Não há, porém, uma potência rival enfrentando Deus. O abismo não fala, as trevas não resistem e as águas não atacam. Toda a tensão está entre um mundo ainda não ordenado e a palavra divina que está prestes a ordená-lo.
A expressão tōhû wābōhû, “desolação e vazio”, antecipa a estrutura dos seis dias. Nos três primeiros, Deus responde à desolação ou falta de organização, formando grandes domínios: luz e trevas; águas superiores e inferiores; mares e terra seca. Nos três dias seguintes, responde ao vazio, preenchendo esses domínios com seus habitantes e governantes: luminares; aves e seres marinhos; animais terrestres e seres humanos.
Assim, o primeiro dia corresponde ao quarto: no primeiro, Deus estabelece dia e noite; no quarto, coloca os luminares que regulam esses períodos. O segundo corresponde ao quinto: no segundo, separa céus e águas; no quinto, preenche-os com aves e seres aquáticos. O terceiro corresponde ao sexto: no terceiro, faz aparecer a terra e sua vegetação; no sexto, coloca sobre ela os animais e a humanidade. A correspondência não é absolutamente mecânica, mas é suficientemente clara para organizar a leitura.
O terceiro e o sexto dias contêm dois atos criadores cada um. No terceiro, surgem primeiro a terra seca e depois a vegetação. No sexto, aparecem primeiro os animais terrestres e depois o ser humano. Esses dias mais extensos encerram cada conjunto de três, contribuindo para a sensação de progressão e clímax.
A narrativa avança mediante uma sequência relativamente estável: Deus fala; determina o que deve acontecer; sua palavra se cumpre; ele avalia o resultado; por vezes separa, nomeia ou abençoa; então vêm a tarde e a manhã. As variações dentro dessa regularidade impedem a monotonia. O leitor aprende a esperar as fórmulas, mas cada dia acrescenta algo novo.
A frase “E assim aconteceu” manifesta a eficácia da palavra divina. Entre a ordem e seu cumprimento não existe conflito, demora ou resistência. Ainda assim, o texto alterna essa fórmula com descrições mais desenvolvidas: “Deus fez”, “a terra fez brotar”, “Deus criou”. A criação é simultaneamente resultado imediato da palavra de Deus e processo no qual as próprias criaturas recebem capacidade de produzir e multiplicar vida.
O verbo בָּרָא, bārāʾ, “criar”, aparece cinco vezes no capítulo: uma vez na abertura, uma vez na criação dos grandes seres marinhos e três vezes no poema sobre a humanidade. Essa distribuição destaca momentos de especial relevância. No v. 27, a repetição tripla de “criou” interrompe o padrão da prosa e transforma a criação humana em um pequeno hino:
“Deus criou o ser humano à sua imagem;
à imagem de Deus o criou;
homem e mulher os criou.”
O poema passa do singular ao plural. “O ser humano” é criado; “o” criou; mas “os” criou homem e mulher. A humanidade é una em sua origem e dignidade, mas plural em sua existência concreta. A diferenciação sexual não antecede a imagem divina nem a limita: homem e mulher são, juntos e igualmente, portadores da imagem.
A expressão “Deus disse” ocorre dez vezes. As dez declarações conferem à criação a forma de uma sequência de palavras soberanas. O universo não nasce do acidente, de uma batalha entre divindades ou de relações sexuais entre deuses. Ele surge porque o Deus único fala de modo racional e eficaz. A estrutura do mundo corresponde, portanto, a uma palavra dotada de intenção.
A avaliação “bom” aparece sete vezes: seis avaliações parciais e, no final, a declaração “muito bom”. O número sete, associado à completude na literatura bíblica, participa da organização do texto sem precisar ser transformado em código secreto. Na divisão massorética das palavras, o primeiro versículo possui sete palavras e o segundo, catorze. A composição parece convidar o leitor a perceber ordem também na forma do relato.
As separações desempenham função decisiva. Deus separa luz e trevas, águas de águas, dia e noite. A criação não é apresentada primariamente como fabricação de matéria, mas como estabelecimento de distinções que tornam a vida possível. Separar não significa declarar um lado mau: tanto o dia quanto a noite, tanto os mares quanto a terra pertencem ao mundo criado. A ordem nasce quando cada realidade recebe limites, nome e função.
O ato de nomear também expressa autoridade. Deus chama à luz “Dia”, às trevas “Noite”, à porção seca “Terra”, ao ajuntamento das águas “Mares” e à abóbada “Céus”. Nomear é integrar cada elemento em um mundo inteligível. Mais tarde, em Gn 2, o ser humano nomeará os animais, exercendo de maneira derivada a vocação representativa que recebeu de Deus.
O capítulo contém diversos efeitos sonoros. Tōhû wābōhû produz uma combinação memorável para o estado inicial da terra. Yĕhî ʾôr wayĕhî ʾôr aproxima ordem e cumprimento: “Haja luz — e houve luz”. Yišrĕṣû hammayim šereṣ faz as águas “fervilharem de um fervilhar”. A expressão sobre as aves, עוֹף יְעוֹפֵף, ʿôp yĕʿôpēp, reúne substantivo e verbo da mesma raiz: algo próximo de “voem os voadores”. O hebraico não apenas informa; ele faz a criação soar e mover-se diante do ouvinte.
A vegetação surge no terceiro dia, antes dos luminares do quarto. Dentro da lógica literária do texto, isso impede que o Sol seja entendido como fonte autônoma ou divina da vida. A luz já existe antes do luminar maior, e a terra brota porque Deus ordena. Os astros são posteriormente colocados como servidores do tempo e da iluminação.
Algo semelhante acontece com os “grandes monstros marinhos”. Em textos e culturas do antigo Oriente Próximo, grandes criaturas aquáticas podiam simbolizar forças hostis ou divindades caóticas. Gênesis não nega a majestade dessas criaturas, mas retira delas qualquer independência: elas são simplesmente animais criados por Deus, classificados “segundo suas espécies” e incluídos em sua avaliação de bondade.
A humanidade representa o ápice do sexto dia, mas não o encerramento absoluto da criação. O verdadeiro clímax está em Gn 2.1-3, quando Deus repousa, abençoa e santifica o sétimo dia. A estrutura conduz do espaço desordenado à terra habitável, da terra habitável à comunidade de seres vivos e dessa comunidade ao tempo santo da presença de Deus.
Por isso, Gênesis 1 não é apenas uma narrativa sobre como o mundo começou. É uma proclamação sobre que espécie de mundo ele é: uma realidade distinta de Deus, mas inteiramente dependente dele; diversa, porém ordenada; material, porém sagrada; fecunda, mas limitada; entregue ao governo humano, embora continue pertencendo ao Criador.
O capítulo também define que espécie de Deus governa esse mundo. Ele não cria por violência, necessidade ou competição. Cria por sua palavra, separa sem destruir, concede funções, abençoa a fecundidade e contempla com satisfação a alteridade de suas criaturas. O domínio humano somente pode ser compreendido corretamente quando imita esse modo divino de governar.
Finalmente, a repetição de “houve tarde e houve manhã” confere à narrativa um ritmo quase litúrgico. Cada dia se fecha como uma estrofe, enquanto a repetição conduz o leitor adiante. Os marcadores massoréticos de parágrafo aberto, representados pela letra פ ao final de cada dia no texto fornecido, reforçam essa percepção tradicional das jornadas como painéis sucessivos.
A criação começa em silêncio escuro, com o sopro de Deus sobre as águas. Depois, a palavra rompe o silêncio; a luz rompe as trevas; os espaços recebem limites; a terra ganha cor; as águas fervilham; os céus se enchem de asas; os animais ocupam o solo; a humanidade se ergue como imagem de Deus. Por fim, Deus contempla não apenas cada parte, mas o conjunto inteiro, e pronuncia a avaliação que encerra o movimento do capítulo: “E eis que era muito bom”.
Notas de tradução
No princípio
- Palavra original:
- בְּרֵאשִׁית
- Transliteração:
- bĕrēʾšît
- Significado básico:
- “no princípio”, “no começo” ou “quando começou”.
Voltar ao texto ↑A palavra deriva de רֹאשׁ, rōʾš, “cabeça”, “início” ou “parte principal”. A construção hebraica permite alguma discussão sintática: o versículo pode ser entendido como uma afirmação independente — “No princípio, Deus criou” — ou como uma oração temporal ligada ao que segue — “Quando Deus começou a criar”. A primeira leitura, adotada aqui, corresponde melhor à cadência solene da abertura e à acentuação massorética, embora a segunda seja gramaticalmente possível.
O versículo não emprega uma expressão técnica equivalente a “criação a partir do nada”. A doutrina cristã da creatio ex nihilo resulta da leitura canônica e teológica mais ampla das Escrituras, e não apenas da semântica isolada desta palavra.
Os céus e a terra
- Palavra original:
- אֵת הַשָּׁמַיִם וְאֵת הָאָרֶץ
- Transliteração:
- ʾēt haššāmayim wĕʾēt hāʾāreṣ
- Significado básico:
- “os céus e a terra”.
Voltar ao texto ↑A expressão forma um merismo: dois extremos são mencionados para designar a totalidade. “Os céus e a terra” significa, portanto, todo o mundo ordenado, tudo o que existe no âmbito da criação. O plural שָׁמַיִם, šāmayim, é a forma normal da palavra hebraica para “céus” e não implica necessariamente uma doutrina de vários níveis celestes.
Desolação e vazio
- Palavra original:
- תֹהוּ וָבֹהוּ
- Transliteração:
- tōhû wābōhû
- Significado básico:
- “desolação e vazio”, “ermo e vazio”.
Voltar ao texto ↑A expressão possui forte efeito sonoro, quase impossível de reproduzir integralmente em português. O primeiro termo, tōhû, descreve algo ermo, inútil, desordenado ou inabitável; bōhû, termo muito mais raro, indica vazio ou ausência de conteúdo.
“Sem forma e vazia”, tradução tradicional, pode sugerir uma reflexão filosófica sobre matéria informe. O hebraico, porém, descreve sobretudo uma terra ainda não organizada como ambiente habitável e ainda não preenchida por seres vivos. A narrativa responderá aos dois problemas: nos três primeiros dias, Deus ordena os espaços; nos três seguintes, preenche-os.
Abismo
- Palavra original:
- תְּהוֹם
- Transliteração:
- tĕhôm
- Significado básico:
- “profundidade”, “oceano primordial”, “abismo aquático”.
Voltar ao texto ↑O termo designa a massa profunda das águas. Em outros textos bíblicos, pode referir-se às profundezas do mar ou às águas subterrâneas. A imagem pertence à cosmologia do antigo Oriente Próximo, na qual as águas representam o mundo ainda não delimitado e organizado.
Embora tĕhôm seja frequentemente comparado ao nome da divindade mesopotâmica Tiamat, Gênesis não apresenta o abismo como uma deusa nem descreve uma batalha entre Deus e uma potência rival. O abismo já está sob a presença e a autoridade de Deus.
O Espírito de Deus
- Palavra original:
- רוּחַ אֱלֹהִים
- Transliteração:
- rûaḥ ʾĕlōhîm
- Significado básico:
- “Espírito de Deus”, “vento de Deus” ou “sopro de Deus”.
Voltar ao texto ↑A palavra רוּחַ, rûaḥ, reúne sentidos que o português distribui entre “vento”, “sopro”, “respiração” e “espírito”. Alguns intérpretes entendem a expressão como “um vento poderoso” ou “um vento vindo de Deus”, porque o nome divino pode, em determinadas construções hebraicas, intensificar uma qualidade. No entanto, a tradução tradicional “Espírito de Deus” é antiga, gramaticalmente plausível e se harmoniza com o papel criador e vivificador atribuído ao Espírito em outros textos bíblicos.
A escolha preserva a dimensão pessoal e teológica da expressão. O Espírito de Deus paira sobre as águas ainda não ordenadas, antecipando a palavra divina que fará surgir um mundo habitável, fecundo e cheio de vida.
Pairava
- Palavra original:
- מְרַחֶפֶת
- Transliteração:
- mĕraḥepet
- Significado básico:
- “pairava”, “adejava”, “tremulava sobre”.
Voltar ao texto ↑O verbo רָחַף, rāḥap, descreve um movimento vibrante ou protetor. Em Dt 32.11, é empregado para a águia que adeja sobre seus filhotes. A imagem sugere movimento, presença e cuidado potencial, sem que seja necessário imaginar literalmente uma ave.
“Pairava” preserva a quietude tensa da cena: sobre as águas escuras, a presença divina não está ausente nem ameaçada; encontra-se suspensa, prestes a agir.
Haja luz! E houve luz
- Palavra original:
- יְהִי אוֹר וַיְהִי־אוֹר
- Transliteração:
- yĕhî ʾôr wayĕhî ʾôr
- Significado básico:
- “seja luz — e foi luz”.
Voltar ao texto ↑O hebraico produz uma das frases mais breves e sonoras de toda a narrativa. O mesmo verbo aparece na ordem e no cumprimento, criando correspondência imediata entre palavra e realidade. Deus não luta, fabrica instrumentos nem recorre a auxiliares: ele fala, e o que diz acontece.
A tradução “Haja luz! E houve luz” conserva a concisão, a repetição e o caráter performativo da fala divina.
Boa
- Palavra original:
- טוֹב
- Transliteração:
- ṭôb
- Significado básico:
- “bom”, “belo”, “adequado”, “benéfico”.
Voltar ao texto ↑O termo não indica apenas bondade moral. No contexto da criação, significa que aquilo que Deus fez corresponde à sua finalidade, funciona adequadamente e contribui para a ordem do conjunto. A criação é boa porque se mostra fecunda, ordenada e apropriada à vida.
A fórmula “Deus viu que era bom” aparece sete vezes no capítulo, alcançando seu ponto culminante em “muito bom”, no v. 31.
Dia um
- Palavra original:
- יוֹם אֶחָד
- Transliteração:
- yôm ʾeḥād
- Significado básico:
- “dia um” ou “um dia”.
Voltar ao texto ↑O hebraico não emprega o ordinal “primeiro”, mas o numeral cardinal “um”. Nos dias seguintes, aparecem “segundo”, “terceiro” e assim por diante. “Dia um” preserva essa diferença deliberada e apresenta o primeiro dia como o estabelecimento da própria unidade pela qual os demais serão contados.
“Primeiro dia” seria mais idiomático em português, mas apagaria uma pequena singularidade literária do texto hebraico.
Abóbada
- Palavra original:
- רָקִיעַ
- Transliteração:
- rāqîaʿ
- Significado básico:
- “extensão”, “superfície estendida”, “abóbada”.
Voltar ao texto ↑A palavra está relacionada ao verbo רָקַע, rāqaʿ, “estender”, “espalmar” ou “bater uma lâmina”. Na representação cosmológica pressuposta pelo texto, o céu é concebido como uma grande extensão que separa as águas superiores das inferiores.
“Firmamento” é tradicional, mas pode não comunicar mais ao leitor moderno a imagem original. “Abóbada” torna mais perceptível a concepção espacial do narrador. Trata-se de linguagem cosmológica antiga, empregada para proclamar quem ordena o mundo, e não de uma descrição científica em terminologia moderna.
Porção seca
- Palavra original:
- הַיַּבָּשָׁה
- Transliteração:
- hayyabbāšâ
- Significado básico:
- “a parte seca”, “terra seca”.
Voltar ao texto ↑Antes de receber o nome “Terra”, o solo aparece simplesmente como aquilo que não está coberto pelas águas. A retirada ou reunião das águas torna visível o espaço habitável. O movimento não é propriamente o de criar nova matéria, mas o de delimitar, separar e revelar.
O ato de nomear “Terra” e “Mares” manifesta autoridade: Deus determina a identidade e a função dos grandes domínios da criação.
Segundo suas espécies
- Palavra original:
- לְמִינֵהוּ
- Transliteração:
- lĕmînēhû
- Significado básico:
- “segundo sua espécie” ou “conforme seu tipo”.
Voltar ao texto ↑מִין, mîn, refere-se a agrupamentos reconhecíveis de plantas e animais. Não corresponde precisamente ao conceito moderno e técnico de “espécie” na taxonomia biológica. O texto enfatiza regularidade, diversidade ordenada e capacidade de reprodução.
A repetição da expressão mostra que a fecundidade não produz caos: a vida se multiplica segundo padrões estabelecidos.
Tempos determinados
- Palavra original:
- מוֹעֲדִים
- Transliteração:
- môʿădîm
- Significado básico:
- “tempos marcados”, “ocasiões determinadas”, “festas estabelecidas”.
Voltar ao texto ↑A palavra pode designar estações do ano, datas fixadas ou festividades religiosas. Na tradição sacerdotal, à qual Gênesis 1 costuma ser associado, môʿădîm possui forte relação com o calendário litúrgico de Israel.
Os luminares não apenas iluminam: organizam o tempo humano, agrícola e cultual. “Tempos determinados” preserva a amplitude da expressão, sem reduzi-la somente às estações climáticas ou somente às festas religiosas.
Luminares
- Palavra original:
- מְאֹרֹת
- Transliteração:
- mĕʾōrōt
- Significado básico:
- “fontes de luz”, “luminares”.
Voltar ao texto ↑O texto não chama diretamente os dois astros de “Sol” e “Lua”, mas de “luminar maior” e “luminar menor”. Não se pode demonstrar que essa omissão seja exclusivamente uma polêmica contra os cultos solares e lunares do antigo Oriente Próximo, mas seu efeito literário é inequívoco: os astros não são divindades, e sim objetos feitos e colocados por Deus.
Até as estrelas, frequentemente associadas a poderes divinos ou à determinação do destino, aparecem quase como um acréscimo discreto: “e também as estrelas”.
Governar
- Palavra original:
- מֶמְשֶׁלֶת
- Transliteração:
- memšelet
- Significado básico:
- “governo”, “domínio”, “função governante”.
Voltar ao texto ↑Os luminares “governam” o dia e a noite ao regular seus ciclos e iluminar seus respectivos períodos. Sua autoridade é funcional e delegada: eles exercem uma tarefa que Deus lhes atribuiu.
A mesma lógica reaparece na criação humana. Governar, em Gênesis 1, não significa possuir autonomia diante de Deus, mas exercer uma responsabilidade dentro da ordem estabelecida por ele.
Fervilhem as águas
- Palavra original:
- יִשְׁרְצוּ הַמַּיִם שֶׁרֶץ
- Transliteração:
- yišrĕṣû hammayim šereṣ
- Significado básico:
- “fervilhem as águas de um fervilhar”.
Voltar ao texto ↑O hebraico aproxima palavras da mesma raiz: o verbo “fervilhar” e o substantivo “enxame” ou “multidão de seres”. A construção comunica abundância, movimento e quase permite ouvir a agitação das águas agora cheias de vida.
“Fervilhem as águas de seres vivos” procura conservar essa energia sem produzir uma frase excessivamente artificial em português.
Grandes monstros marinhos
- Palavra original:
- הַתַּנִּינִם הַגְּדֹלִים
- Transliteração:
- hattannînîm haggĕdōlîm
- Significado básico:
- “os grandes monstros aquáticos”, “as grandes criaturas marinhas”.
Voltar ao texto ↑תַּנִּין, tannîn, pode designar grandes animais aquáticos, serpentes ou monstros associados ao caos. Em outros textos poéticos, criaturas semelhantes aparecem como inimigos simbólicos derrotados por Deus.
Aqui, porém, não há combate. As criaturas que em outras culturas poderiam representar poderes divinos ou caóticos são simplesmente criadas por Deus. “Monstros marinhos” preserva essa ressonância mitopoética, enquanto “grandes animais marinhos” seria mais neutro, mas perderia parte da força cultural do termo.
Abençoou
- Palavra original:
- וַיְבָרֶךְ
- Transliteração:
- waybārek
- Significado básico:
- “e abençoou”.
Voltar ao texto ↑Esta é a primeira ocorrência explícita da bênção divina na Bíblia. A bênção não consiste apenas em palavras de aprovação: ela comunica capacidade de gerar vida, multiplicar-se e ocupar o espaço concedido por Deus.
A fecundidade das criaturas não é independente nem acidental; é um dom que procede da palavra de Deus.
Seres vivos
- Palavra original:
- נֶפֶשׁ חַיָּה
- Transliteração:
- nepeš ḥayyâ
- Significado básico:
- “criatura viva”, “ser vivente”.
Voltar ao texto ↑נֶפֶשׁ, nepeš, não significa necessariamente uma “alma” imaterial separável do corpo. Pode indicar a vida, a garganta, o desejo, a pessoa ou o ser vivo inteiro. A mesma expressão é empregada para animais e, em Gn 2.7, para o ser humano.
“Seres vivos” evita introduzir no texto uma divisão antropológica entre corpo e alma que não está presente nesta expressão.
Ser humano
- Palavra original:
- אָדָם
- Transliteração:
- ʾādām
- Significado básico:
- “ser humano”, “humanidade”, “Adão”.
Voltar ao texto ↑Sem artigo e dependendo do contexto, ʾādām pode ser um nome próprio ou uma designação do ser humano. Em Gn 1.26-27, a referência é coletiva: Deus cria a humanidade, que posteriormente é diferenciada como homem e mulher.
“Ser humano” evita que o leitor entenda “homem” exclusivamente como indivíduo masculino. A alternância posterior entre o singular “o criou” e o plural “os criou” confirma o caráter simultaneamente uno e coletivo da humanidade.
Façamos
- Palavra original:
- נַעֲשֶׂה
- Transliteração:
- naʿăśeh
- Significado básico:
- “façamos”.
Voltar ao texto ↑O plural tem recebido diversas explicações. A interpretação histórico-literária mais provável é que Deus fale diante de sua corte celestial, o conselho dos seres celestes que aparece em textos como 1Rs 22.19-22, Jó 1–2 e Is 6.1-8. Isso não significa que tais seres participem da criação humana: no v. 27, o verbo volta ao singular, e somente Deus cria.
Outras propostas incluem um plural de deliberação ou uma forma de autoexortação. O chamado “plural de majestade”, embora popular, não é bem documentado nos verbos do hebraico bíblico desse período.
A tradição cristã leu legitimamente o plural à luz da revelação posterior do Pai, do Filho e do Espírito. Essa leitura canônica e trinitária, contudo, deve ser distinguida da explicação gramatical e histórica imediata da expressão.
Imagem” e “semelhança
- Palavra original:
- צֶלֶם e דְּמוּת
- Transliteração:
- ṣelem e dĕmût
- Significado básico:
- “imagem” e “semelhança”.
Voltar ao texto ↑צֶלֶם, ṣelem, pode designar uma estátua ou representação visível; דְּמוּת, dĕmût, ressalta correspondência ou semelhança. O paralelismo do texto indica que os dois termos se explicam mutuamente, e não necessariamente que descrevam duas partes distintas da natureza humana.
No antigo Oriente Próximo, reis podiam ser considerados imagens dos deuses e instalar suas estátuas como sinais de autoridade. Gênesis democratiza radicalmente essa linguagem: não apenas o rei, mas toda a humanidade, homem e mulher, representa Deus no mundo.
Ser imagem de Deus envolve dignidade, relação e vocação. Os seres humanos são representantes vivos do governo divino, embora jamais sejam divinos nem independentes de seu Criador.
Que eles governem
- Palavra original:
- וְיִרְדּוּ
- Transliteração:
- wĕyirdû
- Significado básico:
- “e que eles dominem”, “governem” ou “exerçam autoridade”.
Voltar ao texto ↑O verbo está no plural, embora “ser humano” apareça no singular coletivo. A mudança prepara o v. 27: a humanidade é uma unidade, mas existe concretamente na pluralidade de homens e mulheres.
O domínio humano não é apresentado como licença para devastar. Por ser exercido por criaturas feitas à imagem de Deus, deve refletir o governo do próprio Deus, que organiza, dá vida, abençoa e considera boa a existência das outras criaturas.
Homem e mulher
- Palavra original:
- זָכָר וּנְקֵבָה
- Transliteração:
- zākār ûnĕqēbâ
- Significado básico:
- “macho e fêmea”, “masculino e feminino”.
Voltar ao texto ↑Os termos hebraicos destacam a diferenciação sexual. “Homem e mulher” foi escolhido porque soa mais digno e natural quando aplicado a pessoas em português, embora “macho e fêmea” seja lexicalmente mais direto.
O verso possui estrutura poética em três linhas. A primeira afirma que o ser humano foi criado à imagem de Deus; a segunda repete e intensifica essa afirmação; a terceira esclarece que a imagem divina pertence igualmente ao homem e à mulher. Nenhum dos dois sexos representa Deus de maneira mais plena que o outro.
Sujeitem-na
- Palavra original:
- וְכִבְשֻׁהָ
- Transliteração:
- wĕkibšuhā
- Significado básico:
- “submetam-na”, “sujeitem-na”, “coloquem-na sob domínio”.
Voltar ao texto ↑O verbo כָּבַשׁ, kābaš, é forte e pode ser empregado para subjugação territorial. Aqui indica que a terra ainda exige trabalho humano para que suas potencialidades sejam desenvolvidas e seus espaços sejam habitados.
O mandato não autoriza exploração irresponsável. O contexto imediato restringe a violência: homens e animais recebem plantas como alimento, e a criação inteira acaba de ser declarada boa. A autoridade humana é real, mas permanece subordinada à bondade e à finalidade do Criador.
Muito bom
- Palavra original:
- טוֹב מְאֹד
- Transliteração:
- ṭôb mĕʾōd
- Significado básico:
- “muito bom”, “excepcionalmente bom”.
Voltar ao texto ↑Até aqui, elementos particulares haviam sido considerados “bons”. Agora Deus contempla “tudo o que havia feito”, e a avaliação recai sobre o conjunto. A bondade plena não está apenas em cada criatura isolada, mas nas relações ordenadas entre luz, tempo, águas, terra, plantas, animais e humanidade.
A expressão não afirma que o mundo já tenha alcançado toda maturidade possível. A humanidade ainda deverá cultivar, multiplicar-se e ocupar a terra. O mundo é “muito bom” como criação íntegra, fecunda e apta a desenvolver-se segundo a bênção de Deus.
O sexto dia
- Palavra original:
- יוֹם הַשִּׁשִּׁי
- Transliteração:
- yôm haššiššî
- Significado básico:
- “o sexto dia”.
Voltar ao texto ↑Diferentemente dos dias anteriores, o sexto recebe o artigo definido: “o sexto dia”. A pequena alteração confere peso ao encerramento da série e prepara o leitor para o sétimo dia, narrado em Gn 2.1-3.
A divisão moderna dos capítulos separa artificialmente o repouso do sétimo dia da narrativa dos seis dias. Literariamente, Gn 1.1–2.3 constitui uma unidade: a criação não culmina simplesmente no ser humano, mas no descanso divino e na santificação do tempo.